segunda-feira, 17 de novembro de 2008

AMOR É FOGO QUE ARDE SEM SE VER (Luis de Camões)



Amor é fogo que arde sem se ver;
É ferida que dói e não se sente;
É um contentamento descontente;
É dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
É um andar solitário entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É um cuidar que se ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade
É servir a quem vence o vencedor,
É ter com quem nos mata lealdade.

Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade;
Se tão contrário a si é o mesmo amor?

.

domingo, 16 de novembro de 2008

SOBRE TEMPO E JABUTICABAS (autor desconhecido)

Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora.
Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
  • Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.

  • Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.

  • Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.

  • Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.

  • Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.

  • Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.

  • Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.

Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...

Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.

O essencial faz a vida valer a pena.

Basta o essencial!

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

PINGOS NOS I's - Análise de Edson Pinto


ANÁLISE DOS COMENTÁRIOS DE UMA HOLANDESA SOBRE O BRASIL

(O início de cada item, em preto, é da autora da carta. Os comentários, em azul, são meus)

Ela diz:

Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil. E realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior elesmaximizam os positivos, enquanto no Brasil maximizam os negativos.

1) Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque não há nada automatizado.

COMENTÁRIO:
Fizemos de fato um bom progresso neste particular. Temos, contudo que considerar o fato de termos 190 milhões de habitantes, mais de 100 milhões de eleitores e que, aqui, até analfabeto vota. O voto eletrônico surgiu quase como uma necessidade para a realização de tantas eleições como temos. A Holanda tem 16 milhões de habitantes. 12 vezes menos do que o Brasil e o seu território é cerca de 200 vezes menor do que o nosso. Claro que não é por falta de inteligência que eles não implantaram ainda um sistema de voto eletrônico. Acresce-se a isso o fato de que a Holanda é uma monarquia constitucional que elege por voto direto apenas os 150 membros da Segunda Câmara e os Deputados das 12 províncias. Bem mais simples do que o nosso sistema eleitoral. Tenho certeza que o Brasil não terá nenhum pudor em passar-lhes nosso know how nesta matéria se eles julgarem importante tê-la.

2) Só existe uma companhia telefônica e (pasmem!) se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.

COMENTÁRIO:
Lamento que atualmente seja assim. Quando morei naquele belo país, funcionava muito bem. No Brasil, o sistema teve grande crescimento com a privatização do setor de comunicações. Porém, isto nos trouxe um problema que nem podíamos imaginar e que ainda não se encontra resolvido: O atendimento ao consumidor é uma tortura sem fim. Quem nunca teve um ataque de nervos quando precisou falar com a operadora da telefonia fixa ou mesmo da celular para fazer uma reclamação ou cancelar uma linha? Por aqui as coisas melhoraram, sem dúvida, porém ainda não estão boas.

3) Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos - antes de comer. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com a mesma mão suja entregam o pão ou a carne. Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.

COMENTÁRIO:
Penso que a autora da carta menciona alguma excentricidade de certos lugares. Eu mesmo nunca vi de forma generalizada essa falta de higiene nos paises desenvolvidos. Se isso fosse real haveria muita doença, o que sabidamente não é o caso. Aqui no Brasil, excluídos as regiões mais abastadas e por isso, melhor educadas, o que se vê é exatamente a falta de higiene. Será que a autora já foi a uma favela, a um boteco de periferia ou à feira livre em certos rincões do país?

4) Na Europa, nao-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador. Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir para lá dar aulas de 'Como conquistar o Cliente'.

COMENTÁRIO:
Verdade que o atendimento de restaurantes ou de outros serviços em Paris é um acinte. Nosso povo mais comunicativo e caloroso seria, de fato, um sucesso por lá. Mas não vamos pensar que todos os prestadores de serviços aqui no “patropi” são, assim, tão gentis. Quem já teve a experiência de ser atendimento em uma Delegacia de Polícia para registrar um BO? Você já viu como as pessoas simples são tratadas nas filas do INSS ou em um hospital do SUS? E uma abordagem de um policial na nobre missão de cuidar da segurança pública?

5) Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos emotivos.

COMENTÁRIO:
Não dá para concordar plenamente. Penso que ela não conhece o Galvão Bueno e outros ufanistas tupiniquins. O brasileiro é exageradamente nacionalista. Em qualquer evento esportivo do mundo vemos mais bandeiras do Brasil do que de outros paises, incluindo a dos EUA. Penso até que um dos nossos males é exatamente esse de achar que somos bons em tudo, quando na verdade somos apenas bons em algumas coisas.

6) O Brasil tem uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da língua Portuguesa.

COMENTÁRIO:
Jogo do contente, pois ter um Português mais apreciado do que o do país original não melhora muito nossa vida no mundo internacional dos negócios. Temos, sim, orgulho da língua portuguesa, mas seria muito bom se os brasileiros falassem com mais regularidade a língua internacional por excelência que é o Inglês.

7) Os brasileiros são vítimas de vários crimes contra sua pátria, crenças, cultura, língua, etc. Os brasileiros mais esclarecidos sabem que tem muitas razões para resgatar as raízes culturais. Os dados são da Antropos Consulting:

COMENTÁRIO:
Essa informação contradiz pesquisas que nos mostram como um dos povos mais otimistas do mundo, mesmo sabendo que temos carências sociais ainda não resolvidas. Minha experiência pessoal é que, fora do Brasil, sempre tive muito orgulho de dizer que sou brasileiro. A nossa imagem é – em geral – muito boa. Isso nos facilita a abertura de muitas portas.

8) O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.

COMENTÁRIO:
Parece que isto é verdadeiro. Só precisamos investir em pesquisas próprias para não ficarmos pagando fortunas pela compra de medicamentos produzidos em outros paises como fazemos com o coquetel de combate à AIDS e outros medicamentos que os países desenvolvidos protegem com patentes e nos cobram os olhos da cara para seu fornecimento.

9) O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.

COMENTÁRIO:
Legal! Temos tradição em pesquisas de vanguarda, o que nos falta é uma política robusta para o desenvolvimento de pesquisas nas mais variadas áreas das Ciências. As nossas Universidades apresentam baixíssimos índices de resultados em pesquisas básicas e há pouca integração com a iniciativa privada. Quem nunca ouviu falar de cientistas brasileiros que migram para centros mais desenvolvidos somente porque lá podem desenvolver melhor as suas pesquisas? No final, os paises desenvolvidos acabam usurpando os nossos talentos a custo zero e ainda ficam com a vanguarda do desenvolvimento cientifico.

10) Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.

COMENTÁRIO:
Francamente não consigo entender como uma cidade tão perigosa e recordista mundial de crimes pode, ao mesmo tempo, ser assim tão solidária. Será que a solidariedade de que fala a autora é a normal entre vitimas da violência urbana? Enquanto tivermos tanta miséria nos aglomerados urbanos do país não conseguiremos fazer de nossas cidades locais agradáveis para se viver e para receber turistas. Não fosse isso verdade, o Rio de Janeiro, pelas suas belezas naturais incontestes, deveria ser um dos destinos turísticos mais fortes do mundo, e não é.

11) Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.

COMENTÁRIO:
Bom que tenhamos um sistema informatizado para apuração de votos em eleições de todos os níveis. Seria melhor, contudo, que tivéssemos bons candidatos, honestos, competentes e que encarassem a vida publica como um sacerdócio e não como meio de enriquecimento ilícito como temos visto ao longo de tantos anos da Política brasileira.

12) Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.

COMENTÁRIO:
Temos crescido sim no uso da Internet e das ferramentas de informatização responsáveis pela economia pós-industrial que já domina grande parte do mundo. Esta, de fato, constitui-se em uma grande oportunidade que temos para queimar etapas no processo de desenvolvimento. Se os governos, presente e futuros, entenderem bem isso, certamente saberão cuidar bem para que as telecomunicações e a web não sucumbam sob o peso absurdo de impostos.

13) No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.

COMENTÁRIO:
Temos esse mercado de 190 milhões de habitantes e a abundância de recursos outros que nos propicia a montagem do próprio parque industrial. É algo que não devemos desprezar e muito menos tentar tirar proveito inconseqüente. Nesses dias que correm, discutem no âmbito do CONFAZ o aumento das alíquotas do IPI para os veículos populares, justo no momento em que o país mais produziu carros em toda a sua história. Os políticos imaginam que os fabricantes estão ganhando muito e o povo com muita renda, de tal modo que poderiam coletar mais impostos. Parece desconhecer que seria mais inteligente aumentar a arrecadação de impostos em função de maiores vendas em quantidades. Nunca devemos nos esquecer que a nossa carga tributária já ronda os 40% do PIB. Uma das maiores do mundo e sem retorno adequando em termos de serviços públicos. Querem matar a galinha dos ovos de ouro...

14) Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.

COMENTÁRIO:
Ótimo, mas precisamos persistir, pois o ideal é 100%. Além do mais, está na hora de começarmos a trabalhar no aspecto qualidade, pois o desempenho de nossos alunos em testes mundo afora sempre nos colocam nos últimos lugares. O problema começa com a falta de preparo dos professores, baixos salários que não atraem bons profissionais, escassez de recursos materiais e pais relapsos quanto à educação de seus filhos. Temos muito a fazer nesse tema.

15) O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo com 650 mil novas habilitações a cada mês.

COMENTÁRIO:
A tecnologia de comunicação móvel desenvolveu-se e expandiu-se mundo afora. Felizmente em momento muito adequando tomamos a decisão de privatizar o setor e isto atraiu capitais que nos colocam em posição não muito distante do que já ocorre em paises de nível de desenvolvimento mais adiantado. Se os impostos não fossem tantos, teríamos mais gente ainda desfrutando dessa revolucionária tecnologia.

16) Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas.

COMENTÁRIO:
Mas, ainda temos problemas... O telefone tem que ter seu uso universalizado como está contido na legislação que regula o setor. Cobram-se, ainda, muitos impostos e a população mais pobre não consegue manter telefones fixos com taxas tão altas. A conseqüência disso é que está ocorrendo uma migração para a telefonia móvel, pois nela as pessoas ainda podem ser contatas sem necessariamente gerar ligações e custos.

17) Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO 9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.

COMENTÁRIO:
Este é um dado positivo. Felizmente, empresários brasileiros têm consciência de que a manutenção de suas posições de liderança nos mercados em que atuam depende da excelência de seus atendimentos e de seus produtos. As normas de qualidade são partes desse processo. Chama-nos, contudo, a atenção o fato de que não há certificado ISO 9000 capaz de melhorar o desempenho de prestadores de serviço monopolistas, como os Correios e outros quando não há concorrência para lhes roubar os clientes.

18) O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos. Por que esse vício de só falar mal do Brasil?

COMENTÁRIO:
A dimensão continental do país é propícia para a existência de um robusto mercado para aviação tanto comercial como pessoal. No entanto, não temos ainda um sistema de trens de alta velocidade ou mesmo metrôs em extensão suficiente para poupar-nos dos dissabores do uso quase que obrigatório do carro nas nossas grandes cidades. Não nos iludamos quanto ao tamanho da frota de helicópteros: Ela decorre da dificuldade de locomoção. Quem tem dinheiro suficiente opta por um helicóptero até mesmo para ir da casa que fica no bairro chique e tranqüilo para a sua fábrica do outro lado do burburinho urbano.

19) Por que não se orgulhar em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?

COMENTÁRIO:
A nossa publicação chegou a ápice de cerca de 50.000 títulos em 1998 e vem caindo gradativamente nos últimos anos. Atualmente está em cerca da metade de títulos novos. Não é difícil correlacionar esse número com o nível educacional do brasileiro. Sabemos que o brasileiro lê pouco, bem como a quantidade de analfabetos funcionais (aqueles que lêem, mas não compreendem bem o que lêem) é muito grande. O hábito da leitura deve ser forjado na escola básica. Esse é um dos grandes desafios do sistema educacional do país.

20) Que o Brasil tem o mais moderno sistema bancário do planeta?

COMENTÁRIO:
Aqui uma pitada de ironia: Com tanto dinheiro que os bancos vêm ganhando nas últimas décadas neste país, seria inaceitável que não tivessem colocado parte de seus astronômicos lucros na modernização do sistema bancário. Além do mais, os bancos no Brasil são empregadores que pagam maus salários e a automação ajuda-os a reduzir a quantidade de funcionários de suas folhas de pagamento. Considerando que os grandes computadores, os softwares operacionais, seus aplicativos, bem como o hardware das redes de comunicação e outras parafernálias necessárias para o funcionamento dos sistemas computacionais dos bancos são desenvolvidos e vendidos pelos paises ricos, estes agradecem...

21) Que as agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?

COMENTÁRIO:
É verdade! Temos grandes gênios da comunicação que merecerem tais prêmios. Não fosse a criatividade dessa gente, ficaria quase impossível vender produtos e serviços que incorporam uma das maiores cargas tributária do planeta.

22) Por que não se fala que o Brasil é o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedica considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?

COMENTÁRIO:
Essa faceta da personalidade média do brasileiro é de fato muito interessante. Temos – em geral – a idéia de que podemos ficar ricos tocando o próprio negócio. O brasileiro tem o empreendedorismo circulando em suas veias. Esse é um patrimônio cultural que nos colocaria em excelente posição no rank do desenvolvimento se não fossem os entraves burocráticos que nos colocam na rabeira da lista de países para se abrir e fechar negócios: Meses para abrir uma empresa e anos para fechá-la. Impostos em excesso, legislação trabalhista totalmente defasada, burocracia infinda para tudo e, apesar disso, ainda conseguimos levar adiante sonhos de termos o próprio negócio. Imaginem se fossemos um país sem burocracia e com nível adequado de tributação? Ninguém nos seguraria...

23) Por que não dizer que o Brasil é hoje a terceira maior democracia do mundo?

COMENTÁRIO:
Ainda bem! Só que demoramos muito a consolidar nossa democracia. Tivéssemos consolidado-a há tempos e o nosso sistema político seria menos corrupto e confuso. Decisões de governo mais acertadas teriam nos colocado em patamar de desenvolvimento e de equilíbrio social elevados. A propósito, temos a quinta população mundial e, portanto é natural que sejamos, pelo menos numericamente falando, uma grande democracia.

24) Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?

COMENTÁRIO:
Não tomaria esta afirmação tão a sério. O nosso sistema eleitoral, embora com toda a aparência de democrático, contém um erro capital: As pessoas de bem se afastam da política porque não se sentiriam confortáveis em meio tão hostil, para não dizer outra palavra mais ácida. Por outro lado, os espertalhões, os desonestos e os detentores de outros vícios morais condenáveis buscam no aparato político meios para prosperarem e se protegerem. Um dia isso mudará, mas precisamos ainda de algumas gerações e de reformas do sistema político que garantam o mínimo de atratibilidade aos homens de bem.

25) Por que não lembrar que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem?

COMENTÁRIO:
O caráter hospitaleiro do brasileiro é de fato um de nossos traços marcantes. Somos hospitaleiros e calorosos, penso, por que temos um país de sol o ano inteiro e a natureza pródiga que herdamos nos conferem permanente esperança quanto ao futuro. Quem já viveu em um país com pouco sol, onde tudo parece já ter sido feito, sabe muito bem o que é ser frio e triste ao mesmo tempo. Quanto a se esforçar para se comunicar com estrangeiros, isto faz parte desse caráter amistoso/caricatural de nossa gente.

26) Por que não se orgulhar de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando?

COMENTÁRIO:
É assim que levamos a vida... Ponto para nós. Melhor, contudo, seria se sambássemos menos, mas, em contrapartida, tivéssemos a eliminação de nossos eternos contrastes sociais. Juro que eu abriria mão de ver anualmente a beleza do carnaval carioca se em troca acabássemos com as favelas e com a bandidagem que fizeram da cidade maravilhosa uma terra de contrastes e violência.

É! O Brasil é um país abençoado de fato. Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos. Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja, querida pátria chamada Brasil!

COMENTÁRIO:
Nada a reparar...

quarta-feira, 28 de maio de 2008

O ARQUIVO (conto de Victor Giudice)

No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.

joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.

No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.

Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
João transformou-se num arquivo de metal.
Texto publicado originalmente no livro "O Necrológio", Edições O Cruzeiro — Rio de Janeiro, 1972, foi incluído por Ítalo Moricone em sua seleção dos "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 382.

sábado, 29 de março de 2008

FÁBULA MODERNA (Autor Desconhecido)


Uma galinha achou alguns grãos de trigo e disse a seus vizinhos: “Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém quer me ajudar a plantá-lo?”

“Eu não”, disse a vaca.
“Nem eu”, emendou o pato.
“Eu muito menos”, completou o bode.
“Eu também não”, falou o porco.

“Então eu mesma planto”, disse a galinha. E assim o fez. O trigo cresceu alto e amadureceu em grãos dourados. “Quem vai me ajudar a colher o trigo?”, quis saber a galinha.

“Eu não”, disse o pato.
“Não depois de tantos anos de serviço”, exclamou a vaca.
“Não faz parte de minhas funções”, disse o porco.
“Eu me arriscaria a perder o seguro-desemprego”, disse o bode.

“Então eu mesma colho”, falou a galinha, e colheu o trigo ela mesma.

Finalmente, chegou a hora de preparar o pão. “Quem vai me ajudar a assar o pão?” indagou a galinha.

“Só se me pagarem hora extra”, falou a vaca.
“Eu não posso por em risco meu auxílio-doença”, emendou o pato.
“Eu fugi da escola, nunca aprendi a fazer pão e não quero perder o Bolsa Família”, disse o porco.
“Caso só eu ajude, é discriminação”, resmungou o bode.

“Então eu mesma faço”, exclamou a pequena galinha. Ela assou cinco pães, e pôs todos numa cesta para que os vizinhos pudessem ver. De repente, todo mundo queria pão, e exigiu um pedaço. Mas a galinha simplesmente disse: “Não! Eu vou comer os cinco pães sozinha”.

“Lucros excessivos!”, gritou a vaca.
O porco, esse só grunhiu.
“Sanguessuga capitalista!”, exclamou o pato.
“Eu exijo direitos iguais!”, bradou o bode.

Quando um agente do governo chegou, disse à galinhazinha: “Você não pode ser assim egoísta” “Mas eu ganhei esse pão com meu próprio suor”, defendeu-se a galinha.

“Exatamente”, disse o funcionário do governo. "Essa é a beleza da livre empresa. Qualquer um aqui na fazenda pode ganhar o quanto quiser. Mas sob nossas modernas regulamentações governamentais, os trabalhadores mais produtivos têm que dividir o produto de seu trabalho com os que não fazem nada”.

E todos viveram felizes para sempre, inclusive a pequena galinha, que sorriu e cacarejou: “eu estou grata”, “eu estou grata”.

Mas, os vizinhos sempre se perguntavam por que a galinha nunca mais fez um pão.

Essa fábula deveria ser distribuída e estudada em todas as escolas brasileiras.

Quem sabe assim, em uma ou duas gerações, sua mensagem central pudesse tomar o lugar de toda essa sanha pseudo-socialista que insiste em assombrar nosso país e condená-lo à eterna miséria.



Clique aqui para checar a coerência de Fidel Castro







////////////////////////////////////////////////////////////////////

sábado, 22 de março de 2008

ENTREVISTA PAULO ZOTTOLO - ISTO É DINHEIRO 31-01-08

Sem alarde, com muita discrição, a holandesa Philips passa hoje por uma forte mudança em sua forma de trabalhar – a mais profunda reviravolta nas últimas décadas. A reformulação afeta em cheio o negócio que deu nome e força à marca: a área de eletroeletrônicos. Com o objetivo de melhorar a rentabilidade, desde o primeiro dia do ano, as operações passaram a ser divididas em três segmentos: estilo de vida e consumo, cuidados com a saúde e iluminação. A idéia é fazer cada vez mais dinheiro com as duas últimas áreas, que englobam equipamentos hospitalares e lâmpadas, por exemplo. Os novos ventos chegaram também à subsidiária brasileira, assim como ocorreu em todas as filiais. Só que, por aqui, a virada na cultura e na estrutura da empresa criou gargalos e ruídos inéditos na longa trajetória da Philips no País. O abastecimento do varejo ficou comprometido, a concorrência avançou sobre sua participação de mercado e o portfólio de produtos encolheu.



As mudanças mais significativas aconteceram na área comercial. As forças de vendas da Philips e da Walita estão em processo de unificação. Os mesmos vendedores que retiram pedidos de TVs ou DVDs devem negociar a linha de eletrodomésticos, por exemplo. O escritório na sede da filial, na Chácara Santo Antônio, em São Paulo, está em plena reforma. Ao mesmo tempo, o comando no Brasil tomou algumas medidas específicas para a operação local, com revisão da linha de produtos e alterações no alto escalão. Tantas mexidas provocaram efeitos no mercado. O varejo teve dificuldades de receber eletroeletrônicos da Philips nos últimos meses. Uma grande rede varejista não compra mais com regularidade da Philips há um ano, apurou a DINHEIRO. “Certo dia liguei para a área de vendas, e não sabia com quem tirar o pedido”, diz o varejista. Nas redes Ponto Frio, Magazine Luiza, Extra, Fast Shop e Casa & Vídeo, a Philips tem, em média, apenas três modelos de TVs de LCD para venda. O televisor de cristal líquido é o principal negócio da empresa no setor. Sony, Samsung e LG oferecem até 12 modelos ao cliente. O televisor da linha Ambilight (aquele com luzes nas laterais), a coqueluche da marca, só foi encontrado em duas lojas. Já há estimativas de que a LG tenha chegado a 40% de participação de mercado em televisores.

A agressividade dos rivais fez Paulo Zottolo, presidente da Philips, mexer, há cinco meses, na área de marketing do grupo. Ele trouxe para a companhia Gisela Turqueti, que ocupava a diretoria da mesma área na Samsung. Na mídia, a empresa contratou Ivete Sangalo, a garota-propaganda da vez, que aparece em comerciais de xampus, cerveja, automóvel, entre outros. A decisão foi tomada depois que a campanha mundial “Sense and Simplicity” não pegou por aqui. Não se sabe se a baiana funcionou. Um balanço da ação deve ser apresentado nas próximas semanas. Procurada por DINHEIRO, a companhia informa que “fez alterações no seu portfólio no ano passado e isso pode ter afetado o varejo”. Mas esclarece que a situação está normalizada. Além disso, informa que a produção do modelo Ambilight será mantida, e novos modelos devem ser lançados. E esclarece que o grupo cresceu no ano passado no País, embora não possa apresentar os números. Enquanto isso, lá fora, a companhia encolhe no setor eletrônico. As vendas mundiais da Philips nessa área caíram de 10,5 bilhões de euros em 2006 para 10,3 bilhões de euros em 2007. Todos os grandes concorrentes cresceram, relatam os balanços. Em relatório ao mercado, a Philips informa que o setor requer “ação e atenção” – duas palavras que já parecem fazer parte do dicionário de Zottolo por aqui.



quinta-feira, 13 de março de 2008

SER OU NÃO SER... Hamelet - Willian Shakespeare

"Ser ou não ser, eis a questão!

Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne!

Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida.

Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa! Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar quietude com um simples estilete?

Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou...

À UMA DEUZA (sic) - Luiz Lisboa

Tu és o quelso do pental ganírio
Saltando as rimpas do fermim calério,
Carpindo as taipas do furor salírio
Nos rúbios calos do pijom sidério.

És o bartólio do bocal empírio
Que ruge e passa no festim sitério,
Em ticoteios de partano estírio,
Rompendo as gâmbias do hortomogenério.

Teus lindos olhos que têm barlacantes
São camençúrias que carquejam lantes,
Nas duras pélias do pegal balônio.

São carmentórios de um carce metálio,
De lúrias peles em que pulsa obálio,
Em vertimbáceas do pental perônio.”

À DONA BÁRBARA HELIODORA - Alvarenga Peixoto

Bárbara bela,
Do Norte estrela,
Que o meu destino
Sabes guiar,
De ti ausente
Triste somente
As horas passo
A suspirar.

Por entre as penhas
De incultas brenhas
Cansa-me a vista
De te buscar;
Porém não vejo
Mais que o desejo,
Sem esperança
De te encontrar.

Eu bem queria
A noite e o dia
Sempre contigo
Poder passar;
mas orgulhosa
Sorte invejosa,
Desta fortuna
Me quer privar.

Tu, entre os braços,
Ternos abraços
Da filha amada
Podes gozar;
Priva-me a estrela
de ti e dela,
Busca dous modos
De me matar!

VOU-ME EMBORA PARA PASSÁRGADA - Manuel Bandeira

Vou-me embora pra Passárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Passárgada

Vou-me embora pra Passárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que eu nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d'água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Passárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
Lá sou amigo do rei
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Passárgada.

VOCÊ SABE QUANDO UMA MULHE É GRANDE OU PEQUENA - Martha Medeiros

"Há mulheres de todos os gêneros: histéricas, batalhadoras, frescas, profissionais, chatas, inteligentes, gostosas, parasitas, sensacionais.Mulheres de origens diversas, de idades várias, mulheres de posses ou de grana curta. Mulheres de tudo quanto é jeito.Mas, se eu fosse você prestaria atenção apenas num quesito: se a mulher é do tipo que puxa pra cima ou se é do tipo que empurra pra baixo.

Dizem que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher!Meia-verdade. Ele pode ser grande estando sozinho também.Mas, com uma mulher xarope ele não vai chegar a lugar algum.

Mulher que puxa pra cima é mulher que aposta nas decisões do cara, que não fica telefonando pro escritório toda hora, que tem a profissão dela, que o apóia quando ele diz que vai pedir demissão por questões éticas e que confia que vai dar tudo certo.

Mulher que empurra pra baixo é a que põe minhoca na cabeça dele, a que tem acessos de carência bem na hora que ele tem que entrar numa reunião, a que não avaliza nenhuma mudança que ele propõe (inclusive decisões melhores para os dois), a que quer manter tudo como está.

Mulher que puxa pra cima é a que dá uns toques na hora de ele se vestir, a que não perturba com questões menores, a que incentiva o marido a procurar os amigos, a que separa matérias de revista que possam interessá-lo, a que indica livros, a que faz amor com vontade.

Mulher que empurra pra baixo é a que reclama do salário dele, a que não acredita que ele tenha taco pra assumir uma promoção, a que acha que viajar é despesa e não investimento, a que tem ciúmes da secretária.

Mulher que puxa pra cima é a que dá conselhos e não palpite, a que acompanha nas festas e nas roubadas, a que tem bom humor.

Mulher que empurra pra baixo é a que debocha dos defeitos dele em rodinhas de amigos e que não acredita que ele vá mais longe do que já foi.

Se por trás de todo grande homem, existe uma grande mulher, então vale o inverso também: por trás de um pequeno homem, talvez exista uma mulherzinha de nada."

TÁTICA E ESTRATÉGIA - Mário Benedetti

Minha tática é olhar-te
aprender como tu és
querer-te como tu és

minha tática éfalar-te
e escutar-te
construir com palavras
uma ponte indestrutível

minha tática é
ficar em tua lembrança
não sei como nem sei
com que pretexto
porém ficar em ti

minha tática é
ser franco
e saber que tu és franca
e que não nos vendemos
simulados
para que entre os dois
não haja cortinas
nem abismos

minha estratégia é
em outras palavras
mais profunda e mais
simples

minha estratégia é
que um dia qualquer
não sei como nem sei
com que pretexto
por fim me necessites.

TEU RISO - Pablo Neruda

Tira-me o pão, se quiseres,
tira-me o ar, mas não
me tires o teu riso.

Não me tires a rosa,
a lança que desfolhas,
a água que de súbitobrota da tua alegria,
a repentina ondade prata que em ti nasce.

A minha luta é dura e regresso
com os olhos cansados
às vezes por ver
que a terra não muda,
mas ao entrar teu riso
sobe ao céu a procurar-me
e abre-me todas
as portas da vida.

Meu amor, nos momentos
mais escuros solta
o teu riso e se de súbito
vires que o meu sangue mancha
as pedras da rua,
ri, porque o teu riso
será para as minhas mãos
como uma espada fresca.

À beira do mar, no outono,
teu riso deve erguer
sua cascata de espuma,
e na primavera, amor,
quero teu riso como
a flor que esperava,
a flor azul, a rosa
da minha pátria sonora.

Ri-te da noite,
do dia, da lua,
ri-te das ruas
tortas da ilha,
ri-te deste grosseiro
rapaz que te ama,
mas quando abro
os olhos e os fecho

,quando meus passos vão,
quando voltam meus passos,
nega-me o pão, o ar,
a luz, a primavera,
mas nunca o teu riso,
porque então morreria.

SONETO DE ORFEU - Vinicius de Moraes

São demais os perigos desta vida
Para quem tem paixão, principalmente
Quando uma lua surge de repente
E se deixa no céu, como esquecida.

E se ao luar que atua desvairado
Vem se unir uma música qualquer
Aí então é preciso ter cuidado
Porque deve andar perto uma mulher.

Deve andar perto uma mulher que é feita
De música, luar e sentimento
E que a vida não quer, de tão perfeita.

Uma mulher que é como a própria Lua:
Tão linda que só espalha sofrimento
Tão cheia de pudor que vive nua.

SONETO DA FIDELIDADE - Vinicius de Moraes

De tudo ao meu amor serei atento
Antes, e com tal zelo, e sempre, e tanto
Que mesmo em face do maior encanto
Dele se encante mais meu pensamento.

Quero vivê-lo em cada vão momento
E em seu louvor hei de espalhar meu canto
E rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou seu contentamento

E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

SE - Rudyard Kipling

Se és capaz de manter tua calma,
quando,todo mundo ao redor já a perdeu e te culpa.
De crer em ti quando estão todos duvidando,
e para esses no entanto achar uma desculpa.

Se és capaz de esperar sem te desesperares,
ou, enganado, não mentir ao mentiroso,
Ou, sendo odiado, sempre ao ódio te esquivares,
e não parecer bom demais, nem pretensioso.

Se és capaz de pensar - sem que a isso só te atires,
de sonhar - sem fazer dos sonhos teus senhores.
Se, encontrando a Desgraça e o Triunfo, conseguires,
tratar da mesma forma a esses dois impostores.

Se és capaz de sofrer a dor de ver mudadas,
em armadilhas as verdades que disseste
E as coisas, por que deste a vida estraçalhadas,
e refazê-las com o bem pouco que te reste.

Se és capaz de arriscar numa única parada,
tudo quanto ganhaste em toda a tua vida.
E perder e, ao perder, sem nunca dizer nada,
resignado, tornar ao ponto de partida.

De forçar coração, nervos, músculos, tudo,
a dar seja o que for que neles ainda existe.
E a persistir assim quando, exausto, contudo,
resta a vontade em ti, que ainda te ordena: Persiste!

Se és capaz de, entre a plebe, não te corromperes,
e, entre Reis, não perder a naturalidade.
E de amigos, quer bons, quer maus, te defenderes,
se a todos podes ser de alguma utilidade.

Se és capaz de dar, segundo por segundo,
ao minuto fatal todo valor e brilho.
Tua é a Terra com tudo o que existe no mundo,
e - o que ainda é muito mais - és um Homem, meu filho

POEMA DAS SETE FACES - Carlos Drummond de Andrade

Quando eu nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai Carlos! ser gauche na vida.

As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.

O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coraçãoPorém meus olhos
não perguntam nada

O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucas, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.

Meu Deus por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus
se sabias que eu era fraco.

Mundo mundo vasto mundo,
Se eu me chamasse Raimundo
seria apenas rima, não seria solução.

Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.

DE TANTO VER TRIUNFAR AS NULIDADES... Rui Barbosa

De tanto ver triunfar as nulidades,
de tanto ver prosperar a desonra,
de tanto ver crescer a injustiça,
de tanto ver agigantarem-se
os poderes nas mãos dos maus,
o homem chega a desanimar da virtude,
a rir-se da honra,
a ter vergonha de ser honesto.

PARA QUE SERVEM AS MÃOS - Giuseppe Ghiaroni

Para que servem as mãos?

As mãos servem para pedir, prometer, chamar, conceder, ameaçar, suplicar, exigir, acariciar, recusar, interrogar, admirar, confessar, calcular, comandar, injuriar, incitar, teimar, encorajar, acusar, condenar, absolver, perdoar, desprezar, desafiar, aplaudir, reger, benzer, humilhar, reconciliar, exaltar, construir, trabalhar, escrever...

As mãos de Maria Antonieta, ao receber o beijo de Mirabeau, salvou o trono da França e apagou a auréola do famoso revolucionário; Múcio Cévola queimou a mão que, por engano não matou Porcena;

foi com as mãos que Jesus amparou Madalena; com as mãos David agitou a funda que matou Golias; as mãos dos Césares romanos decidiam a sorte dos gladiadores vencidos na arena;

Pilatos lavou as mãos para limpar a consciência; os anti-semitas marcavam a porta dos judeus com as mãos vermelhas como signo de morte! Foi com as mãos que Judas pôs ao pescoço o laço que os outros Judas não encontram.

A mão serve para o herói empunhar a espada e o carrasco, a corda; o operário construir e o burguês destruir; o bom amparar e o justo punir; o amante acariciar e o ladrão roubar; o honesto trabalhar e o viciado jogar.

Com as mãos atira-se um beijo ou uma pedra, uma flor ou uma granada, uma esmola ou uma bomba! Com as mãos o agricultor semeia e o anarquista incendeia! As mãos fazem os salva-vidas e os canhões; os remédios e os venenos; os bálsamos e os instrumentos de tortura, a arma que fere e o bisturi que salva.

Com as mãos tapamos os olhos para não ver, e com elas protegemos a vista para ver melhor. Os olhos dos cegos são as mãos. As mãos na agulheta do submarino levam o homem para o fundo como os peixes; no volante da aeronave atiram-nos para as alturas como os pássaros.

O autor do "Homo Rebus" lembra que a mão foi o primeiro prato para o alimento e o primeiro copo para a bebida; a primeira almofada para repousar a cabeça, a primeira arma e a primeira linguagem.

Esfregando dois ramos, conseguiram-se as chamas. A mão aberta, acariciando, mostra a bondade; fechada e levantada mostra a força e o poder; empunha a espada a pena e a cruz! Modela os mármores e os bronzes; da cor às telas e concretiza os sonhos do pensamento e da fantasia nas formas eternas da beleza.

Humilde e poderosa no trabalho, cria a riqueza; doce e piedosa nos afetos medica as chagas, conforta os aflitos e protege os fracos.

O aperto de duas mãos pode ser a mais sincera confissão de amor, o melhor pacto de amizade ou um juramento de felicidade. O noivo para casar-se pede a mão de sua amada; Jesus abençoava com a s mãos; as mães protegem os filhos cobrindo-lhes com as mãos as cabeças inocentes.

Nas despedidas, a gente parte, mas a mão fica, ainda por muito tempo agitando o lenço no ar. Com as mãos limpamos as nossas lágrimas e as lágrimas alheias.

E nos dois extremos da vida, quando abrimos os olhos para o mundo e quando os fechamos para sempre ainda as mãos prevalecem. Quando nascemos, para nos levar a carícia do primeiro beijo, são as mãos maternas que nos seguram o corpo pequenino. E no fim da vida, quando os olhos fecham e o coração pára, o corpo gela e os sentidos desaparecem, são as mãos, ainda brancas de cera que continuam na morte as funções da vida. E as mãos dos amigos nos conduzem... E as mãos dos coveiros nos enterram!

OS LUSÍADAS - Canto I, 1-3 - Luiz de Camões

As armas e os Barões assinalados
Que da Ocidental praia Lusitana
Por mares nunca de antes navegados
Passaram ainda além da Taprobana,
Em perigos e guerras esforçados
Mais do que prometia a força humana,
E entre gente remota edificaram
Novo Reino, que tanto sublimaram;

E também as memórias gloriosas
Daqueles Reis que foram dilatando
A Fé, o Império, e as terras viciosas
De África e de Ásia andaram devastando,

E aqueles que por obras valerosas
Se vão da lei da Morte libertando,
Cantando espalharei por toda parte,
Se a tanto me ajudar o engenho e arte.

Cessem do sábio Grego e do Troiano
As navegações grandes que fizeram;
Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram;
Que eu canto o peito ilustre Lusitano,
A quem Neptuno e Marte obedeceram.

Cesse tudo o que a Musa antiga canta,
Que outro valor mais alto se alevanta.

OS FILHOS - Khalil Gibran

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse:
"Fala-nos dos filhos."

E ele falou:

Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.

E embora vivam convosco, não vos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,
Porque eles têm seus próprios pensamentos.

Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.

Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.

Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.

Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:
Pois assim como ele ama a flecha que voa,
Ama também o arco que permanece estável.

ORAÇÃO DA DIGNIDADE HUMANA - Picco della Mirandola

Não te dei face, nem lugar que te seja próprio, nem dom algum que te faça particular, ó Adão, a fim de que tua face, teu lugar e teus dons, tu os desveles, conquistes e possuas por ti mesmo.
Leis por mim estabelecidas definem a natureza de outras espécies.

Mas tu, a quem nenhum confim delimita, por teu próprio arbítrio, entre as mãos daquele que te colocou, tu te defines a ti mesmo.

Te pus no mundo a fim de que possas melhor contemplar o que contém o mundo.
Não te fiz celeste nem terrestre, mortal ou imortal, a fim de que tu mesmo, livremente, à maneira de um bom pintor ou de um hábil escultor, descubras a tua própria forma...

O AMOR - Khalil Gibran

E alguém disse:
Fala-nos do Amor:-

Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagemvos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes sero pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.
Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.

Khalil Gibran

NO MEIO DO CAMINHO - Carlos Drummond de Andrade

No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedratinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.

NAVEGAR É PRECISO - Fernando Pessoa

Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:
"Navegar é preciso; viver não é preciso".

Quero para mim o espírito desta frase,
transformada a forma para a casar como eu sou:

Viver não é necessário; o que é necessário é criar.
Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso.
Só quero torná-la grande,
ainda que para isso tenha de ser o meu corpoe a (minha alma) a lenha desse fogo.

Só quero torná-la de toda a humanidade;
ainda que para isso tenha de a perder como minha.
Cada vez mais assim penso.

Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue
o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade.

É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça.

MEUS OITO ANOS - Casimiro de Abreu

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!

Como são belos os dias
Do despontar da existência!
— Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é — lago sereno,
O céu — um manto azulado,
O mundo — um sonho dourado,
A vida — um hino d'amor!

Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d'estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!

Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minhã irmã!

Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
— Pés descalços, braços nus
—Correndo pelas campinas
A roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!

Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava às Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!

Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
— Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
A sombra das bananeiras
Debaixo dos laranjais!

MAR PORTUGUÊS - Fernando Pessoa

"Ó mar salgado,
quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor.
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu"

JOSÉ - Carlos Drummond de Andrade

E agora, José?
A festa acabou,a luz apagou,
o povo sumiu,a noite esfriou,
e agora, José?
e agora, Você?
Você que é sem nome,
que zomba dos outros,
Você que faz versos,
que ama, protesta?
e agora, José?

Está sem mulher,
está sem discurso,
está sem carinho,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acaboue tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

E agora, José?
sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio, - e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.José,
e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse,
se você tocasse,
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse....
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja do galope,
você marcha, José!
José, para onde?

ISMÁLIA - Alphonsus Guimaraens

Quando Ismália enlouqueceu,Pôs-se na torre a sonhar...
Viu uma lua no céu,
Viu outra lua no mar.

No sonho em que se perdeu,
Banhou-se toda em luar...
Queria subir ao céu,
Queria descer ao mar...

E, no desvario seu,
Na torre pôs-se a cantar...
Estava perto do céu,
Estava longe do mar...

E como um anjo pendeu
As asas para voar...
Queria a lua do céu,
Queria a lua do mar...

As asas que Deus lhe deu
Ruflaram de par em par...
Sua alma subiu ao céu,S
eu corpo desceu ao mar...

Alphonsus de Guimaraens (Afonso Henriques da Costa Guimaraens), nasceu em Ouro Preto (MG), em 1870 e faleceu em Mariana (MG), em 1921. Bacharelou-se em Direito, em 1894, em sua terra natal. Desde seus tempos de estudante colaborava nos jornais “Diário Mercantil”, “Comércio de São Paulo”, “Correio Paulistano”, “O Estado de S. Paulo” e “A Gazeta”. Em 1895 tornou-se promotor de Justiça em Conceição do Serro (MG) e, a partir de 1906, Juiz em Mariana (MG), de onde pouco sairia. Seu primeiro livro de poesia, Dona Mística, (1892/1894), foi publicado em 1899, ano em que também saiu o “Setenário das Dores de Nossa Senhora. Câmara Ardente”. Em 1902 publicou “Kiriale”, sob o pseudônimo de Alphonsus de Vimaraens. Sua “Obra Completa” foi publicada em 1960. Considerado um dos grandes nomes do Simbolismo, e por vezes o mais místico dos poetas brasileiros, Alphonsus de Guimaraens tratou em seus versos de amor, morte e religiosidade. A morte de sua noiva Constança, em 1888, marcou profundamente sua vida e sua obra, cujos versos, melancólicos e musicais, são repletos de anjos, serafins, cores roxas e virgens mortas.

IRACEMA - José de Alencar

Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba.

Verdes mares, que brilhais como líquida esmeralda aos raios do sol nascente, perlongando as alvas praias ensombradas de coqueiros;

Serenai, verdes mares, e alisai docemente a vaga impetuosa, para que o barco aventureiro manso resvale à flor das águas.

Onde vai a afouta jangada, que deixa rápida a costa cearense, aberta ao fresco terral a grande vela?

Onde vai como branca alcíone buscando o rochedo pátrio nas solidões do oceano?

Três entes respiram sobre o frágil lenho que vai singrando veloce, mar em fora.

Um jovem guerreiro cuja tez branca não cora o sangue americano; uma criança e um rafeiro que viram a luz no berço das florestas, e brincam irmãos, filhos ambos da mesma terra selvagem.

A lufada intermitente traz da praia um eco vibrante, que ressoa entre o marulho das vagas:

- Iracema !

O moço guerreiro, encostado ao mastro, leva os olhos presos na sombra fugitiva da terra; a espaços o olhar empanado por tênue lágrima cai sobre o jirau, onde folgam as duas inocentes criaturas, companheiras de seu infortúnio.

Nesse momento o lábio arranca d'alma um agro sorriso

Que deixara ele na terra do exílio?

Uma história que me contaram nas lindas várzeas onde nasci, à calada da noite, quando a lua passeava no céu argenteando os campos, e a brisa rugitava nos palmares.

Refresca o vento.

O rulo das vagas precipita. O barco salta sobre as ondas e desaparece no horizonte. Abre-se a imensidade dos mares, e a borrasca enverga, como o condor, as foscas asas sobre o abismo.

Deus te leve a salvo, brioso e altivo barco, por entre as vagas revoltas, e te poje nalguma enseada amiga. Soprem para ti as brandas auras; e para ti jaspeie a bonança mares de leite!

Enquanto vogas assim à discrição do vento, airoso barco, volva às brancas areias a saudade, que te acompanha, mas não se parte da terra onde revoa.

DOIS - Pablo Neruda

Dois...
Apenas dois.
Dois seres...
Dois objetos patéticos.
Cursos paralelos

Frente a frente......
Sempre......
A se olharem...
Pensar talvez:
Paralelos que se encontram no infinito...

No entanto sós por enquanto.
Eternamente dois apenas.

DIA DOS PAÍS - Giuseppe Ghiaroni


Meu pai está tão velhinho,
tem a mão branca e comprida,
parecendo a sua vida,
longa vida que se esvai.
E eu o lembro quando moço
de uma atlética altivez.
Ah! Tinha força por três!
Você se lembra, papai?

Menino, ouvia dizer
que você era um gigante.
Eu ficava radiante
e também me agigantava.
Porque toda madrugada,
eu quentinho do agasalho,
ao sair para o trabalho
o gigante me beijava.

Sua grande mão de ferro
parecia leve, leve
naquela carícia breve
que da memória não sai.
Depois... um beijo em mamãe
e o meu gigante partia.
E a casa toda tremia
com os passos de papai.

Mas agora o seu retrato
muito moço, muito antigo,
se parece mais comigo
do que mesmo com você.
Você já lembra vovô
e, à medida que envelhece,
papai, você se parece
com mamãe, não sei por quê.

Você se lembra, papai?
Quando mamãe, de repente,
caiu de cama, doente,
era o pai quem cozinhava.
Tão grande e desajeitado
a varrer... Quando eu o via
de avental, papai, eu ria;
eu ria e mamãe chorava.

Eu quis deixar o ginásio
para ganhar ordenado,
ajudar meu pai cansado,
mas tal não aconteceu.
Papai disse estas palavras:
Sou um operário obscuro,
mas você terá futuro,
será melhor do que eu.

Eu? Melhor que este velhinho
a quem devo o pão e o estudo?
Que é pobre porque deu tudo
à Família, à Pátria, à Fé?
Meu pai, com todo o diploma,
com toda a universidade,
quisera eu ser a metade
daquilo que você é.

E quero que você saiba
que, entre amigos, conversando,
meu assunto vai girando
e no seu nome recai.
Da sua força, coragem,
bondade eu conto uma história.
Todos vêem que a minha glória
é ser filho de meu pai.

"Um dia eu fui tomar banho
no rio que estava cheio.
Quando a correnteza veio,
vi a morte aparecer.
Papai saltou dentro d’água
nadando mais do que um peixe,
salvou-me e disse:_ Não deixe!
Não deixe mamãe saber!".

Assim foi meu pai, o forte
que respeitava a fraqueza.
Nunca humilhou a pobreza,
nunca a riqueza o humilhou.
Estava bem com os homens
e com Deus estava bem.
Nunca fez mal a ninguém
e o que sofreu perdoou.

Perdoa então se lhe falo
Daquilo que não se esquece.
E a minha voz estremece
e há uma lágrima que cai.
Hoje sou eu o gigante
e você é pequenino.
Hoje sou eu que me inclino.
Papai... a bênção, papai.

DIA DAS MÃES - Giuseppe Ghiaroni

















Mãe! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
porque a sina das mães é esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.

Perder o filho é como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
já podia ampará-la e compensá-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a velha mãe aflita
ainda se volta para abençoá-la.

Assim parti, e nos abençoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silêncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e te encontro quietinha na cadeira,
a cabeça pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e não me atrevo.
Quero acordar-te, mas não sei se devo,
não sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a miséria que me aconteceu.
E quando vires a expressão horrível
da minha máscara irreconhecível,
minha voz rouca murmurar: ''Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo braço dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comédias,
eu fui vilão em todas as tragédias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mães são esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e só agora, quando chego ao fim,
traído pela última esperança,
e só agora quando a dor me alcança,
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

Não! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouço um ruído;
a cadeira rangeu; é tarde agora!
Minha mãe se levanta abrindo os braços
e, me envolvendo num milhão de abraços,
rendendo graças, diz:"Meu filho!", e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o último dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase é como se o Céu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Mãe! Nos teus braços eu me tranfiguro.
Lembro que fui criança, que fui puro.
Sim, tenho mãe! E esta ventura é tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho é pobre, mas a mãe é rica!
O filho é homem, mas a mãe é santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo,
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar tão doce
que, nada tendo, não te falta nada.

Dia das Mães! É o dia da bondade,
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Mãe cantar junto a um bercinho
cantará a esperança para o mundo!

CONTINUIDADE - Giuseppe Ghiaroni

Existe um cão que ladra quando eu passo,
como se visse um bêbado, um mendigo.
E, no entanto, esse cão foi meu amigo
como tantos amigos que ainda faço.

À noite, com que alegre estardalhaço
vinha encontrar-me no portão antigo,
enquanto a dona vinha ter comigo
e, sorrindo, apoiava-se ao meu braço.

Hoje ele faz a outro a mesma festa
e ela o mesmo carinho,
tão honesta como se nem notasse a transição.

Eu rio dessa triste brincadeira.
mas quando uma mulher é traiçoeira
não se pode confiar nem no seu cão!

COMO DEVE SER UM BOM MÉDICO - Samuel Hahnemann

Escolhei de preferência um médico que jamais se mostre grosseiro, que nunca se irrite, salvo a vista de uma injustiça; que não desdenhe de pessoa alguma, salvo dos lisonjeadores; que tenha poucos amigos, mas por amigos, homens de coração; que deixe aos que sofrem a liberdade de se lastimarem; que jamais emita opinião sem prévia reflexão; que prescreva poucos medicamentos, a maioria das vezes um único, e em substância; que viva modestamente e retirado, afastado do ruído da multidão; que não dissimule o mérito de seus confrades e não faça auto-elogio; enfim, um amigo da ordem, da tranqüilidade, um homem de amor e de caridade."Antes de escolherdes um médico observai como ele se comporta com os doentes pobres e se, em seu gabinete, quando está só, se ocupa com trabalhos sérios."

CANÇÃO DO EXÍLIO - Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá;
As aves, que aqui gorjeiam,
Não gorjeiam como lá.

Nosso céu tem mais estrelas,
Nossas várzeas têm mais flores,
Nossos bosques têm mais vida,
Nossa vida mais amores.

Em cismar, sozinho, à noite,
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Minha terra tem primores,
Que tais não encontro eu cá;
Em cismar –sozinho, à noite–
Mais prazer eu encontro lá;
Minha terra tem palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

Não permita Deus que eu morra,
Sem que eu volte para lá;
Sem que disfrute os primores
Que não encontro por cá;
Sem qu'inda aviste as palmeiras,
Onde canta o Sabiá.

De Primeiros cantos (1847)

AOS MEUS AMIGOS - Vinicius de Moraes

Tenho amigos que não sabem oquanto são meus amigos.Não percebem o amor que lhesdevoto e a absolutanecessidade que tenho deles.A amizade é um sentimento maisnobre do que o amor,eis que permite que o objeto delase divida em outros afetos,enquanto o amor tem intrínseco o ciúme,que não admite a rivalidade.E eu poderia suportar,embora não sem dor,que tivessem morrido todos osmeus amores, mas enlouqueceriase morressem todos os meus amigos!
Até mesmo aqueles que não percebemo quanto são meus amigos e o quantominha vida depende de suas existências ….A alguns deles não procuro, basta-mesaber que eles existem.Esta mera condição me encoraja a seguirem frente pela vida.
Mas, porque não os procuro comassiduidade, não posso lhes dizer oquanto gosto deles.Eles não iriam acreditar.Muitos deles estão lendo esta crônicae não sabem que estão incluídos nasagrada relação de meus amigos.
Mas é delicioso que eu saiba e sintaque os adoro, embora não declare enão os procure.E às vezes, quando os procuro,noto que eles não temnoção de como me são necessários,de como são indispensáveisao meu equilíbrio vital,porque eles fazem partedo mundo que eu, tremulamente,construí e se tornaram alicerces domeu encanto pela vida.
Se um deles morrer,eu ficarei torto para um lado.Se todos eles morrerem, eu desabo!Por isso é que, sem que eles saibam,eu rezo pela vida deles.E me envergonho,porque essa minha prece é,em síntese, dirigida ao meu bem estar.Ela é, talvez, fruto do meu egoísmo.Por vezes, mergulho em pensamentossobre alguns deles.
Quando viajo e fico diante delugares maravilhosos, cai-me algumalágrima por não estarem junto de mim,compartilhando daquele prazer …Se alguma coisa me consomee me envelhece é que aroda furiosa da vida não me permiteter sempre ao meu lado, morandocomigo, andando comigo,falando comigo, vivendo comigo,todos os meus amigos, e,principalmente os que só desconfiamou talvez nunca vão saberque são meus amigos!
A gente não faz amigos, reconhece-os.

ALMA MINHA GENTIL QUE TE PARTISTE - Luiz de Camões

Alma minha gentil, que te partiste
Tão cedo desta vida, descontente,
Repousa lá no Céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste.

Se lá no assento etéreo, onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueças daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.

E se vires que pode merecer-te
Algua cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,

Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te,
Quão cedo de meus olhos te levou.

AINDA ONTEM - Charles Aznavour

Ainda ontem
Eu tinha vinte anos
Acariciava o tempo
E brincava de viver
Como se brinca de namorar

E vivia a noite
Sem considerar meus dias
Que escorriam no tempo
Fiz tantos projetos
Que ficaram no ar

Alimentei tantas esperanças
Que bateram asas
Que permaneço perdido
Sem saber aonde ir

Os olhos procurando o Céu
Mas, o coração posto na Terra

Ainda ontem
Eu tinha vinte anos
Desperdiçava o tempo
Acreditando que o fazia parar

E para retê-lo, e até ultrapassá-lo
Só fiz correr e me esfalfar
Ignorando o passado
Que conduz ao futuro

Precedia da palavra "eu"
Qualquer conversação
E opinava que eu queria o melhor
Por criticar o mundo com desenvoltura

Ainda ontem
Eu tinha vinte anos
Mas perdi meu tempo
A cometer loucuras

O que não me deixa, no fundo
Nada e realmente concreto
Além de algumas rugas na fronte
E o medo do tédio

Porque meus amores
Morreram antes de existir
Meus amigos partiram
E não mais retornarão

Por minha culpa
Criei o vazio em torno a mim
E gastei minha vida
E meus anos de juventude
Do melhor e do pior
Descartando o melhor

Imobilizei meus sorrisos
E congelei meus choros
Onde estão agora
Meus vinte anos?

A DESPEDIDA DE MARQUES - Texto apócrifo

Se, por um instante, Deus se esquecesse de que sou uma marionete de trapo e me presenteasse com um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas, certamente, pensaria tudo o que digo. Daria valor às coisas, não pelo que valem, mas pelo que significam. Dormiria pouco, sonharia mais, pois sei que a cada minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz. Andaria quando os demais parassem, acordaria quando os outros dormem. Escutaria quando os outros falassem e gozaria um bom sorvete de chocolate. Se Deus me presenteasse com um pedaço de vida, vestiria simplesmente, me jogaria de bruços no solo, deixando a descoberto não apenas meu corpo, como minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração, escreveria meu ódio sobre o gelo e esperaria que o sol saísse. Pintaria com um sonho de Van Gogh sobre estrelas um poema de Mário Benedetti e uma canção de Serrat seria a serenata que ofereceria à Lua. Regaria as rosas com minhas lágrimas para sentir a dor dos espinhos e o encarnado beijo de suas pétalas. Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida. Não deixaria passar um só dia sem dizer às gentes - te amo, te amo. Convenceria cada mulher e cada homem que são os meus favoritos e viveria enamorado do amor. Aos homens, lhes provaria como estão enganados ao pensar que deixam de se apaixonar quando envelhecem, sem saber que envelhecem quando deixam de se apaixonar. A uma criança, lhe daria asas, mas deixaria que aprendesse a voar sozinha. Aos velhos ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento. Tantas coisas aprendi com vocês, os homens... Aprendi que todo mundo quer viver no cimo da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com sua pequena mão pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem prisioneiro para sempre. Aprendi que um homem só tem o direito de olhar um outro de cima para baixo para ajudá-lo a levantar-se".

2) CONFIDÊNCIA DO ITABIRANO - Carlos Drummod de Andrade


Alguns anos vivi em Itabira.
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e semhorizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
é doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
esta pedra de ferro, futuro aço do Brasil,este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa...
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

1) A PÁTRIA - Olavo Bilac


Ama, com fé e orgulho, a terra em que nasceste!
Criança! não verás nenhum país como este!
Olha que céu! que mar! que rios! que floresta!
A Natureza, aqui, perpetuamente em festa,
É um seio de mãe a transbordar carinhos.
Vê que vida há no chão! vê que vida há nos ninhos,
Que se balançam no ar, entre os ramos inquietos!
Vê que luz, que calor, que multidão de insetos!
Vê que grande extensão de matas, onde impera
Fecunda e luminosa, a eterna primavera!
Boa terra! jamais negou a quem trabalha
O pão que mata a fome, o teto que agasalha...
Quem com o seu suor a fecunda e umedece,
Vê pago o seu esforço, e é feliz, e enriquece!
Criança! não verás país nenhum como este:
Imita na grandeza a terra em que nasceste!