Eu preferiria ser um fracasso em algo que amo, do que um sucesso em algo que odeio. Eu fumo porque, na minha idade, se não tenho algo em que segurar, eu caio. Você não pode evitar de envelhecer mas você não tem que ser velho. Quando você chegar aos 80 já terá aprendido tudo. Você só precisara lembrar disso. O segredo de um bom sermão é ter um bom começo, um bom fim e ter ambos o mais perto possível. Não importa o que as outras pessoas falem de você, o importante é que você continue sendo a pessoa que sempre foi, e se mudar mude para melhor. Não fique na cama... a menos que você possa fazer dinheiro deitado. Já fui casado por um juiz. Eu deveria ter pedido um júri. Felicidade é ter uma família grande, carinhosa e amorosa... morando em outra cidade. Na realidade, basta um drinque para me deixar mal. Mas nunca sei se é o 13º ou o 14º. É muito ruim que todas as pessoas que sabem como dirigir o país estão ocupadas dirigindo táxis e cortando cabelo. Você nunca será o homem que sua mãe era. O sexo é uma das 9 razões pelas quais gostaria de reencarnar. As outras 8 são irrelevantes. As pessoas me perguntaram que presente gostaria de ganhar nos meus 87 anos. Respondi: “Um teste de paternidade”. Me encanta cantar e me encanta tomar whisky. A maioria das pessoas prefere me escutar tomar whisky. Primeiro você esquece os nomes. Logo você esquece das caras. Depois se esquece de subir a braguilha. Finalmente se esquece de baixá-la. Sabem o que significa chegar em casa de noite e encontrar uma mulher que lhe dê um pouco de amor, um pouco de afeto e um pouco de ternura? Significa que você errou de casa! Na minha idade, as flores e as velas me assustam. Sou tão velho que quando eu era uma criança, o Mar Morto só estava doente.
Se eu pudesse novamente viver a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito,
relaxaria mais, seria mais tolo do que tenho sido.
Na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos,
viajaria mais, contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas, nadaria mais rios.
Iria a mais lugares onde nunca fui,
tomaria mais sorvetes e menos lentilha,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata
e profundamente cada minuto de sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas se eu pudesse voltar a viver trataria somente
de ter bons momentos.
Porque se não sabem, disso é feita a vida, só de momentos;
não percam o agora.
Eu era um daqueles que nunca ia
a parte alguma sem um termômetro,
uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas e,
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua,
contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças,
se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e estou morrendo
(Nota: Há controvérsias se este poema não é de Jorge Luis Borges)
Em todo este caso cubano, um homem se destaca no horizonte de minha memória como o planeta Marte no seu periélio. Quando irrompeu a guerra entre a Espanha e os Estados Unidos, o que importava a estes era comunicar-se rapidamente com o chefe dos insurretos, Garcia, que se sabia encontrar-se em alguma fortaleza no interior do sertão cubano, mas sem que se pudesse precisar exatamente onde. Era impossível comunicar-se com ele pelo correio ou pelo telégrafo. No entanto, o Presidente tinha que tratar de assegurar-se da sua colaboração, e isto quanto antes. Que fazer?
Alguém lembrou ao Presidente: "Há um homem chamado Rowan; e se alguma pessoa é capaz de encontrar Garcia, há de ser Rowan".
Rowan foi trazido à presença do Presidente, que lhe confiou uma carta com a incumbência de entregá-la a Garcia. De como este homem, Rowan, tomou a carta, meteu-a num invólucro impermeável, amarrou-a sobre o peito, e, após quatro dias, saltou, de um barco sem coberta, alta noite, nas costas de Cuba; de como se embrenhou no sertão, para depois de três semanas, surgir do outro lado da ilha, tendo atravessado a pé um pais hostil e entregado a carta a Garcia são coisas que não vem ao caso narrar aqui pormenorizadamente. O ponto que desejo frisar é este: O Presidente Mac Kinley deu a Rowan uma carta para ser entregue a Garcia; Rowan pegou a carta e nem sequer perguntou; "Onde é que ele está?"
Hosanas! Eis aí um homem cujo busto merecia ser fundido em bronze imarcescível e sua estátua colocada em cada escola do país. Não é de sabedoria livresca que a juventude precisa, nem instrução sobre isto ou aquilo. Precisa, sim, de um endurecimento das vértebras, para poder mostrar-se altivo no exercício de um cargo; para atuar com diligência, para dar conta do recado; para, em suma, levar uma mensagem a Garcia.
O General Garcia já não é deste mundo, mas há outros Garcias. A nenhum homem que se tenha empenhado em levar avante uma empresa, em que a ajuda de muitos se torne precisa, tem sido poupados momentos de verdadeiro desespero ante imbecilidade de grande número de pessoas, ante a inabilidade ou falta de disposição de concentrar a mente numa determinada coisa e fazê-la. Assistência irregular, desatenção tola, indiferença irritante e trabalho mal feito, parecem ser a regra geral. Ninguém pode ser verdadeiramente bem sucedido, salvo se lançar mão de todos os meios ao seu alcance, quer da força, quer do suborno, para obrigar outros a ajudá-lo, a não ser que Deus Onipotente, na sua misericórdia, faça um milagre enviando-lhe como auxiliar um anjo de luz. Leitor amigo, tu mesmo podes tirar a prova. Estás sentado no teu escritório, rodeado de meia dúzia de empregados. Pois bem, chama um deles e pede-lhe: "Queira ter a bondade de consultar a enciclopédia e de me trazer uma descrição sucinta da vida de Corregio". Dar-se-ão casos do empregado dizer calmamente: "Sim, Senhor" e executar o que se lhe pediu? Nada disso! Olhar-te-ão perplexo e de soslaio para fazer uma ou mais das seguintes perguntas:
Quem é ele?
Que enciclopédia?
Onde é que está a enciclopédia?
Fui eu acaso contratado para fazer isso?
Não quer dizer Bismark?
E se o Carlos o fizesse?
Já morreu?
Precisa disso com urgência?
Não será melhor que eu traga o livro para que o senhor mesmo procure o que quer?
Para que quer saber isso?
E aposto dez contra um que, depois de haveres respondido a tais perguntas, e explicado a maneira de procurar os dados pedidos e a razão por que deles precisas, teu empregado irá pedir a um companheiro que o ajude a encontrar Corregio, e, depois voltará para te dizer que tal homem não existe. Evidentemente, pode ser que eu perca a aposta mas, segundo a lei das médias, jogo na certa. Ora, se fores prudente, não te darás ao trabalho de explicar ao teu "ajudante" que Corregio se escreve com "C" e não com "K", mas limitar-te-ás a dizer meigamente, esboçando o melhor sorriso: "Não faz mal; não se incomode", e, dito isto, levantar-te-ás e procurarás tu mesmo. E esta incapacidade de atuar independentemente, esta inépcia moral, esta invalidez da vontade, esta atrofia de disposição de solicitamente se por em campo e agir são as coisas que recuam para um futuro tão remoto o advento do socialismo puro. Se os homens não tomam a iniciativa de agir em seu próprio proveito, que farão quando o resultado do seu esforço redundar em benefício de todos? Por enquanto parece que as pessoas ainda precisam ser feitoradas. O que mantém muito empregado no seu posto, e o faz trabalhar, é o medo de, se não o fizer, ser despedido no final do mês. Anuncia-se precisar de um taquígrafo, e nove entre dez candidatos à vaga não saberão ortografar nem pontuar e, o que é mais, pensam que não é necessário sabê-lo. Poderá uma pessoa destas escrever uma carta à Garcia?
Ultimamente temos ouvido muitas expressões sentimentais externando simpatia para com os pobres que mourejam de sol a sol, para com os infelizes desempregados, e tudo isto, quase sempre, entremeado de muita palavra dura para com os homens que estão no poder. Nada se diz do patrão que envelhece antes do tempo, num baldado esforço para induzir eternos desgostosos e descontentes a trabalhar conscienciosamente; nada se diz de sua longa e paciente procura de pessoal, que, no entanto, muitas vezes nada mais faz do que "matar o tempo", logo que ele volta as costas. Não há empresa que não esteja despedindo pessoal que se mostre incapaz de zelar pelos seus interesses, a fim de substituí-lo por outro mais apto. E este processo de seleção por eliminação está se operando incessantemente, em tempos adversos, com a única diferença que, quando os tempos são maus e o trabalho escasseia, a seleção se faz mais escrupulosamente, pondo-se fora, para sempre, os incompetentes e os inaproveitáveis.
É a lei da sobrevivência do mais apto. Cada patrão, no seu próprio interesse, trata somente de guardar os melhores - naqueles que podem levar uma mensagem a Garcia. Conheço um homem de aptidões realmente brilhantes, mas sem a fibra precisa para gerir um negócio próprio e que ademais se torna completamente inútil para qualquer outra pessoa, devido a suspeita insana que constantemente abriga de que seu patrão o esteja oprimindo ou tencione oprimi-lo. Sem poder mandar, não tolera que alguém o mande. Se lhe fosse confiada uma mensagem a Garcia, retrucaria provavelmente: "Leve-a você mesmo". Hoje este homem perambula errante pelas ruas em busca de trabalho, em quase petição de miséria. No entanto, ninguém que o conheça se aventura a dar-lhe trabalho porque é a personificação do descontentamento e do espírito de replica. Refratário a qualquer conselho ou admoestação, a única coisa capaz de nele produzir algum efeito seria um bom pontapé dado com a ponta de uma bota de número 42, sola grossa e bico largo. Sei, não resta dúvida, que um indivíduo moralmente aleijado como este, não é menos digno de compaixão que um fisicamente aleijado. Entretanto, nesta demonstração de compaixão, vertamos também uma lágrima pelos homens que se esforçam por levar avante uma grande empresa, cujas horas de trabalho não estão limitadas pelo som do apito e cujos cabelos ficam prematuramente encanecidos na incessante luta em que estão empenhados contra a indiferença desdenhosa, contra a imbecilidade crassa e a ingratidão atroz, justamente daqueles que, sem o seu espírito empreendedor, andariam famintos e sem lar. Dar-se-á o caso de eu ter pintado a situação em cores demasiado carregadas? Pode ser que sim; mas, quando todo mundo se apraz em divagações quero lançar uma palavra de simpatia ao homem que imprime êxito a um empreendimento, ao homem que, a despeito de uma porção de empecilhos, sabe dirigir e coordenar os esforços de outros e que, após o triunfo, talvez verifique que nada ganhou; nada, salvo a sua mera subsistência. Também eu carreguei marmitas e trabalhei como jornaleiro. Sei, portanto, sobre ambos os lados. Não há excelência na pobreza de per si; farrapos não servem de recomendação. Nem todos os patrões são gananciosos e tiranos, da mesma forma que nem todos os pobres são virtuosos. Todas as minhas simpatias pertencem à pessoa que trabalha conscienciosamente, quer o patrão esteja, quer não, e àqueles que, ao lhe ser confiada uma carta para Garcia, tranquilamente toma a missiva, sem fazer perguntas idiotas, e sem a intenção oculta de jogá-la na primeira sarjeta que encontrar, ou praticar qualquer outro feito que não seja entregá-la ao destinatário. Essas pessoas nunca tem que se declarar em greve para forçar um aumento de ordenado. A civilização busca ansiosa, insistentemente, pessoas nestas condições. Tudo que uma tal pessoa pedir se-lhe-á concedido. Precisa-se dela em cada cidade em cada vila, em cada lugarejo, em cada escritório, em cada oficina, em cada loja, fábrica ou venda. O grito do mundo inteiro praticamente se resume nisso: Precisa-se, e precisa-se, com urgência de um homem capaz de levar uma mensagem a Garcia.
Este discurso é trecho do filme Sua Excelência, de 1966/67, em que o inesquecível Cantinflas, comediante mexicano, pronuncia na Assembleia da ONU no papel de Embaixador de um país fictício. Contém uma lição bem atual apesar de ter sido pronunciado há mais de 40 anos. (Tradução de José Chirivino Álvares)
Coube-me, por sorte, ser o último orador. Isso muito me agrada, pois assim os pego cansados. Não obstante, sei que apesar da insignificância do meu país que não tem poderio militar, nem político, nem econômico, nem muito menos atômico, todos os Senhores esperam com grande interesse minhas palavras já que do meu voto depende o triunfo dos Verdes ou dos Vermelhos.
Senhores Representantes:
Estamos passando por um momento crucial em que a humanidade se enfrenta ante essa mesma humanidade. Estamos vivendo um momento histórico em que o homem científica e intelectualmente é um gigante, mas moralmente é um pigmeu. A opinião mundial está tão profundamente dividida em dois grupos aparentemente irreconciliáveis, que ocorre o caso de que um só voto, o voto de um país fraco e pequeno, pode fazer que a balança penda para um ou para o outro lado. Estamos, portanto, numa grande gangorra. Com um lado ocupado pelos Verdes e com o outro ocupado pelos Vermelhos.E agora chego eu, que sou peso-pluma, e do lado que me colocar, para lá penderá a balança! Façam-me o favor!
Os Senhores não creem que é muita responsabilidade para um só cidadão? E porque também não considero justo que a metade da humanidade - seja qual for ela - venha a ser condenada a viver sob um regime político e econômico que não é de seu agrado, somente porque um frívolo embaixador votou - ou que o tenham feito votar - num sentido ou no outro. E é por isso que não votarei em nenhuma das duas teses. E não votarei em nenhuma das duas teses, por três razões:
Primeira, porque – repito - não seria justo que um só voto de um só representante – que poderia neste momento estar doente do fígado – venha a decidir os destinos de cem nações.
Segunda, porque estou convencido de que os procedimentos - repito e sublinho: os procedimentos dos Vermelhos (os países comunistas) são desastrosos.
E a terceira, porque estou convencido de que os procedimentos dos Verdes (os Estados Unidos da América) tampouco são os mais bondosos que se possa ter
E se não se calarem imediatamente, não sigo com o discurso e os Senhores ficarão com a curiosidade de saber o que eu tinha para lhes dizer. Insisto que falo de procedimentos e não de idéias e nem de doutrinas.
Para mim todas as idéias são respeitáveis, ainda que sejam “ideiazinhas” ou “ideiazonas” e mesmo que eu não esteja de acordo com elas. O que pensa esse Senhor, ou esse outro Senhor, ou aquele Senhor, ou esse de bigodinho que já não pensa nada porque já está dormindo, nada disso impede que sejamos, todos nós, bons amigos. Todos cremos que nossa maneira de ser, nossa maneira de viver, nossa maneira de pensar e até o nosso modo de andar são os melhores; e esse modelo tratamos de impô-lo aos demais e, se não os aceitam, dizemos que 'são isso ou são aquilo' e, imediatamente, entramos em desinteligências.
Os senhores acham que isso está correto?
Tão fácil seria a vida se ao menos respeitássemos o modo de viver de cada um. Faz cem anos que disse uma das figuras mais humildes, mas mais importantes do nosso continente:'O respeito ao direito alheio é a paz'. É disso que eu gosto! Não que me aplaudam, mas que reconheçam a sinceridade das minhas palavras. Estou de acordo com tudo o que disse o Senhor Representante da Salsichônia com humildade (N.T.: referência à Alemanha); com humildade de pedreiros independentes devemos lutar para derrubar a barreira que nos separa; a barreira da incompreensão; a barreira da mútua desconfiança; a barreira do ódio. E no dia em que conseguirmos, poderemos dizer que voamos por cima da barreira.
Mas não a barreira das idéias, isso não, nunca! No dia em que pensarmos iguais, atuarmos iguais, deixaremos de ser homens para converter-nos em máquinas, em autômatos. Esse é o grave erro dos Vermelhos, o querer impor pela força suas ideias e seu sistema político e econômico. Falam de liberdades humanas, mas eu lhes pergunto: existem essas liberdades em seus próprios países? Dizem defender os Direitos do Proletariado, mas seus próprios trabalhadores nem sequer possuem o direito fundamental à greve. Falam da cultura universal ao alcance das massas, mas encarceraram os seus escritores porque eles se atrevem a dizer a verdade. Falam da livre determinação dos povos e, no entanto, há cem anos oprimem uma série de nações sem permitir-lhes que se dêem uma forma de governo que mais lhes convenham.
Como podemos votar por um sistema que fala de dignidade e, ato contínuo, atropela o mais sagrado da dignidade humana, que é a liberdade de consciência, eliminando ou pretendendo eliminar a Deus por decreto?
Não, senhores representantes, eu não posso estar com os Vermelhos ou, melhor dizendo, com sua maneira de atuar. Respeito seu modo de pensar, mas não posso dar meu voto para que seu sistema se implante pela força em todos os países da Terra. Aquele que quiser ser Vermelho que o seja, mas que não pretenda tingir os demais
Um momento, jovens! Senhores! Por que tão sensíveis? Os senhores não agüentam nada, não? Eu ainda não terminei. Voltem aos seus lugares. Sei que estão acostumados a abandonar essas reuniões quando ouvem algo que não é de seu agrado; mas não terminei. Voltem aos seus lugares, não sejam precipitados, ainda tenho que dizer algo sobre os Verdes. Os senhores gostariam de ouvir? Sentem-se!Agora, meus queridos colegas Verdes.
O que disseram os Senhores? - Já votou por nós? Não? Pois não, jovens. Não votarei por vocês porque vocês também têm muita culpa por tudo que acontece no mundo. Vocês são soberbos como se o mundo fosse só de vocês e que os demais tivessem uma importância apenas relativa. E ainda que falem de paz, de democracia e de coisas muito bonitas, às vezes também pretendem impor sua vontade pela força e pela força do dinheiro. Estou de acordo que devamos lutar pelo bem coletivo e individual; que devamos combater a miséria; que devamos resolver os tremendos problemas de habitação, do vestir e do sustento. Mas não estou de acordo é com a forma que vocês pretendem resolver esses problemas. Vocês também sucumbiram ante o materialismo, esqueceram os mais belos valores do espírito. Pensando somente nos negócios, pouco a pouco foram se convertendo nos credores da humanidade e, por isso, a humanidade lhes vê com desconfiança.
No dia da inauguração desta Assembléia, o Senhor Embaixador da 'Ladarônia' disse que o remédio para todos os nossos males estava em ter automóveis, refrigeradores, televisores. E eu me pergunto: para que queremos automóveis se ainda andamos descalços? Para que queremos refrigeradores se não temos alimentos para colocar neles? Para que queremos tanques e armamentos se não temos escolas para nossos filhos? Devemos lutar para que o homem pense na paz, mas não somente impulsionado pelo seu instinto de conservação, se não, e fundamentalmente, pelo dever que tem de superar-se e de fazer do mundo um local de paz e tranquilidade cada vez mais digno da espécie humana e de seus altos destinos. Mas essa aspiração não será possível se não houver abundância para todos; bem-estar comum, felicidade coletiva e justiça social.
É verdade que está em suas mãos - dos países poderosos da terra, Verdes e Vermelhos -, o ajudar a nós, os fracos, mas não com presentes, nem com empréstimos, nem com alianças militares. Ajudem-nos pagando preços mais justos, mais eqüitativos por nossas matérias-primas; ajudem-nos dividindo conosco seus notáveis avanços na ciência, na tecnologia. Não para fabricar bombas, mas para acabar com a fome e com a miséria.
Ajudem-nos respeitando nossos costumes, nossas crenças, nossa dignidade como seres humanos e nossa personalidade como nações, por pequenos e frágeis que sejamos.
Pratiquem a tolerância e a verdadeira fraternidade, e nós saberemos corresponder-lhes. Mas deixem imediatamente de tratar-nos como simples peões no tabuleiro de xadrez da política internacional. Reconheçam-nos como o que somos, não somente como clientes ou como ratos de laboratório, mas como seres humanos que sentem, sofrem e choram.
Senhores representantes, existe outra razão a mais por que não posso dar meu voto:faz exatamente vinte e quatro horas que apresentei minha renúncia como Embaixador do meu país. Espero que seja aceita. Consequentemente, não lhes falei como Excelência, mas como um simples cidadão; como um homem livre; como um homem qualquer; mas que, não obstante, crê interpretar ao máximo as aspirações de todos os homens da Terra; as aspirações e os desejos de viver em paz; o desejo de ser livres; o desejo de entregar aos nossos filhos e aos filhos de nossos filhos um mundo melhor; em que reine a boa vontade e a concórdia.
E que fácil seria, senhores, alcançar esse mundo melhor em que todos os homens brancos, negros, amarelos e pardos, ricos e pobres pudessem viver como irmãos. Se não fôssemos tão cegos, tão obcecados, tão orgulhosos. Se apenas orientássemos nossas vidas pelas sublimes palavras que, faz dois mil anos, disse aquele humilde carpinteiro da Galiléia, simples, descalço, sem fraque nem condecorações:
“Amai-vos, amai-vos uns aos outros!”
Mas, lamentavelmente vocês entenderam mal, confundiram os termos. E o que fizeram? E o que fazem?
Luís é o tipo de cara que você gostaria de conhecer.
Ele estava sempre de bom humor e sempre tinha algo de positivo para dizer. Se alguém lhe perguntasse como ele estava, a resposta seria logo:-Se melhorar estraga. Ele era um gerente especial em um restaurante, pois, seus garçons o seguiam de restaurante em restaurante apenas pelas suas atitudes. Ele era um motivador nato. Se um colaborador estava tendo um dia ruim, Luís estava sempre dizendo como ver o lado positivo da situação. Fiquei tão curioso com seu estilo de vida que um dia lhe perguntei:
-Você não pode ser uma pessoa positiva todo tempo. Como faz isso? Ele me respondeu:
A cada manhã, ao acordar, digo para mim mesmo: Luís, você tem duas escolhas hoje. Pode ficar de bom humor ou de mau humor. Eu escolho ficar de bom humor. Cada vez que algo ruim acontece, posso escolher bancar a vítima ou aprender alguma coisa com o ocorrido. Eu escolho aprender algo. Toda vez que alguém reclamar, posso escolher aceitar a reclamação ou mostrar o lado positivo da vida.
-Certo, mas não é fácil- argumentei.
Ë fácil sim,disse-me Luís. A vida é feita de escolhas. Quando você examina a fundo, toda situação sempre oferece escolha. Eu pensei sobre o que o Luís disse e sempre se lembrava dele quando fazia uma escolha.
Anos mais tarde, soube que Luís cometera um erro, deixando a porta de serviço aberta pela manhã. Foi rendido por assaltantes. Dominado, enquanto tentava abrir o cofre, sua mão tremenda pelo nervosismo, desfez a combinação do segredo. Os ladrões entraram em pânico e atiraram nele. Por sorte foi encontrado a tempo de ser socorrido e levado para um hospital.
Depois de 18 horas de cirurgia e semanas de tratamento intensivo, teve alta ainda com fragmentos de balasalojadas em seu corpo. Encontrei Luís mais ou menos por acaso. Quando lhe perguntei como estava, respondeu:
Se melhorar estraga. Contou-me o que havia acontecido, perguntando:
Quer ver minhas cicatrizes?Recusei ver seus antigos ferimentos, mas perguntei-lhe o que havia passado em sua mente na ocasião do assalto.
A primeira coisa que pensei foi que deveria ter trancado a porta de trás, respondeu. Então, deitado no chão, ensangüentado, lembrei que tinha duas escolhas: poderia viver e morrer. Escolhi viver. Você não estava com medo? Perguntei.
Os para-médicos foram ótimos. Eles me diziam que tudo ia dar certo e que ia ficar bom. Mas quando entrei na sala de emergência e vi a expressão dos médicos e enfermeiras, fiquei apavorado. Em seus lábios eu lia:“
Esse aí já era”.Decidi então que tinha que fazer algo.
Bem. Havia uma enfermeira que fazia muitas perguntas. Perguntou-me se eu era alérgico a alguma coisa. Eu respondi: “sim”. Todos pararam para ouvir a minha resposta. Tomei fôlego e gritei: “Sou alérgico a balas!” Entre risadas lhes disse: “Eu estou escolhendo viver, operem-me como um ser vivo, não como morto.”
Luís sobreviveu graças à persistência dos médicos, mas também graças à sua atitude. Aprendi que todo diatemos opção de viver plenamente.
Sempre vejo anunciados cursos de oratória. Nunca vi anunciado curso de escutatória. Todo mundo quer aprender a falar. Ninguém quer aprender a ouvir. Pensei em oferecer um curso de escutatória, mas acho que ninguém vai se matricular. Escutar é complicado e sutil. Diz Alberto Caeiro que "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores. É preciso também não ter filosofia nenhuma". Filosofia é um monte de idéias, dentro da cabeça, sobre como são as coisas. Para se ver, é preciso que a cabeça esteja vazia. Parafraseio o Alberto Caeiro: "Não é bastante ter ouvidos para ouvir o que é dito; é preciso também que haja silêncio dentro da alma". Daí a dificuldade: a gente não agüenta ouvir o que o outro diz sem logo dar um palpite melhor, sem misturar o que ele diz com aquilo que a gente tem a dizer. Como se aquilo que ele diz não fosse digno de descansada consideração e precisasse ser complementado por aquilo que a gente tem a dizer, que é muito melhor. Nossa incapacidade de ouvir é a manifestação mais constante e sutil de nossa arrogância e vaidade: no fundo, somos os mais bonitos...
Tenho um velho amigo, Jovelino, que se mudou para os Estados Unidos estimulado pela revolução de 64. Contou-me de sua experiência com os índios. Reunidos os participantes, ninguém fala. Há um longo, longo silêncio. Os pianistas, antes de iniciar o concerto, diante do piano, ficam assentados em silêncio, abrindo vazios de silêncio. Expulsando todas as idéias estranhas. Todos em silêncio, à espera do pensamento essencial. Aí, de repente, alguém fala. Curto. Todos ouvem. Terminada a fala, novo silêncio. Falar logo em seguida seria um grande desrespeito, pois o outro falou os seus pensamentos, pensamentos que ele julgava essenciais. São-me estranhos. É preciso tempo para entender o que o outro falou.
Se eu falar logo a seguir, são duas as possibilidades. Primeira: "Fiquei em silêncio só por delicadeza. Na verdade, não ouvi o que você falou. Enquanto você falava, eu pensava nas coisas que iria falar quando você terminasse sua (tola) fala. Falo como se você não tivesse falado". Segunda: "Ouvi o que você falou. Mas isso que você falou como novidade eu já pensei há muito tempo. É coisa velha para mim. Tanto que nem preciso pensar sobre o que você falou". Em ambos os casos, estou chamando o outro de tolo. O que é pior que uma bofetada.
O longo silêncio quer dizer: "Estou ponderando cuidadosamente tudo aquilo que você falou". E assim vai a reunião. Não basta o silêncio de fora. É preciso silêncio dentro. Ausência de pensamentos. E aí, quando se faz o silêncio dentro, a gente começa a ouvir coisas que não ouvia. Eu comecei a ouvir.
Fernando Pessoa conhecia a experiência, e se referia a algo que se ouve nos interstícios das palavras, no lugar onde não há palavras. A música acontece no silêncio. A alma é uma catedral submersa. No fundo do mar - quem faz mergulho sabe - a boca fica fechada. Somos todos olhos e ouvidos. Aí, livres dos ruídos do falatório e dos saberes da filosofia, ouvimos a melodia que não havia e que de tão linda nos faz chorar. Daí a importância de saber ouvir os outros: a beleza mora lá também. Comunhão é quando a beleza do outro e a beleza da gente se juntam num contraponto.
"Há uma indisfarçável e sedutora beleza na personalidade de muitos homens que hoje estão na idade madura. É claro que toda regra tem as suas exceções, e cada idade tem o seu próprio valor. Porém, com toda a consideração e respeito às demais idades, destacarei aqui uma classe de homens que são companhias agradabilíssimas: Os que hoje são quarentões, cinquentões e sessentões. Percebe-se com uma certa facilidade, a sensibilidade de seus corações, a devoção que eles tem pelo que há de mais belo "O SENTIMENTO."
Eles são mais inteligentes, vividos, charmosos, eloqüentes. Sabem o que falam, e sabem falar na hora certa. São cativantes, sabem fazer-se presentes, sem incomodar. Sabem conquistar uma boa amizade. Em termos de relacionamentos, trocam a quantidade pela qualidade, visão aguçada sobre os valores da vida, sabem tratar uma mulher com respeito e carinho. São Homens especiais, românticos, interessantes e atraentes pelo que possuem na sua forma de ser, de pensar, e de viver. Na forma de encarar a vida, são mais poéticos, mais sentimentais, mais emocionais e mais emocionantes.
Homens mais amadurecidos têm maior desenvoltura no trato com as mulheres, sabem reconhecer as suas qualidades, são mais espirituosos, discretos, compreensivos e mais educados. A razão pela qual muitos Homens maduros possuem estas qualidades maravilhosas deve-se a vários fatores: a opção de ser e de viver de cada um, suas personalidades, formação própria e familiar, suas raízes, sabedoria, gostos individuais, etc... mas eu creio que em parte, há uma boa parcela de influência nos modos de viver de uma época, filmes e músicas ouvidas e curtidas deixaram boas recordações da sua juventude, um tempo não tão remoto, mas que com certeza, não volta mais. Viveram a sua mocidade (época que marca a vida de todos nós) em um dos melhores períodos do nosso tempo: Os anos 60/70.
Considerados as "décadas de ouro" da juventude, quando o romantismo foi vivido e cantado em verso e prosa. A saudável influência de uma época, provocada por tantos acontecimentos importantes, que hoje permanecem na memória, e que mudaram a vida de muitos. Uma época em que o melhor da festa era dançar agarradinho e namorar ao ritmo suave das baladas românticas. O luar era inspirador, os domingos de sol eram só alegrias. Ouviam Beatles, Johnny Mathis, Roberto Carlos, Antônio Marcos, The Fevers, Golden Boys, Bossa Nova, Morris Albert, Jovem guarda e muitos outros que embalaram suas "Jovens tardes de domingo, quantas alegrias! Velhos tempos, belos dias. "Foram e ainda são os Homens que mais souberam namorar: Namoro no portão, aperto de mão, abraços apertadinhos, com respeito e com carinho, olhos nos olhos tinham mais valor...
A moda era amar ou sofrer de amor. Muitos viveram de amor... Outros morreram de amor... Estes Homens maduros de hoje, nunca foram Homens de "ficar". Ou eles estavam a namorando firme, ou estavam na "fossa", ou estavam sozinhos. Se eles "ficassem", ficariam para sempre... ao trocar alianças com suas amadas. Junto com Benito de Paula, eles cantaram a "Mulher Brasileira, em primeiro lugar!" A paixão pelo nosso país, era evidente quando cantavam: "As praias do Brasil, ensolaradas, no céu do meu Brasil, mais esplendor... A mão de Deus, abençoou, Mulher que nasce aqui, tem muito mais Amor... Eu te amo, meu Brasil, Eu te amo...
Ninguém segura a juventude do Brasil... "A juventude passou, mas deixou "gravado" neles, a forma mais sublime e romântica de viver. Hoje eles possuem uma "bagagem" de conhecimentos, experiências, maturidade e inteligência que foram acumulando com o passar dos anos. O tempo se encarregou de distingui-los dos demais: Deixando os seus cabelos cor-de-prata, os movimentos mais suaves, a voz pausada, porém mais sonora, hoje eles são Homens que marcaram uma época.
Eu tenho a felicidade de ter alguns deles como amigos virtuais, mesmo não os vendo pessoalmente, percebo estas características através de suas palavras e gestos. Muitos deles hoje "dominam" com habilidade e destreza essas máquinas virtuais, comprovando que nem o avanço da tecnologia lhes esfriou os sentimentos, pois ainda se encantam com versos, rimas, músicas e palavras de amor.
Nem lhes diminuiu a grande capacidade de amar, sentir e expressar seus sentimentos. Muitos tornaram-se poetas, outros amam a poesia. Por que o mais importante não é a idade denunciada nos detalhes de suas fisionomias e sim os raros valores de suas personalidades. O importante é perceber que os seus corações permanecem jovens... São Homens maduros, e que nós, mulheres de hoje, temos o privilégio de poder admirá-los."
Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para frente do que já vivi até agora. Sinto-me como aquele menino que ganhou uma bacia de jabuticabas. As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para projetos megalomaníacos.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafetos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário geral do coral.
Lembrei-me agora de Mário de Andrade que afirmou: 'As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos. Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa...
Sem muitas jabuticabas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade, defende a dignidade dos marginalizados, e deseja tão somente caminhar perto de coisas e pessoas de verdade, desfrutar desse amor absolutamente sem fraudes, nunca será perda de tempo.
ANÁLISE DOS COMENTÁRIOS DE UMA HOLANDESA SOBRE O BRASIL
(O início de cada item, em preto, é da autora da carta. Os comentários, em azul, são meus)
Ela diz:
Os brasileiros acham que o mundo todo presta, menos o Brasil. E realmente parece que é um vício falar mal do Brasil. Todo lugar tem seus pontos positivos e negativos, mas no exterior elesmaximizam os positivos, enquanto no Brasil maximizam os negativos.
1) Aqui na Holanda, os resultados das eleições demoram horrores porque não há nada automatizado.
COMENTÁRIO: Fizemos de fato um bom progresso neste particular. Temos, contudo que considerar o fato de termos 190 milhões de habitantes, mais de 100 milhões de eleitores e que, aqui, até analfabeto vota. O voto eletrônico surgiu quase como uma necessidade para a realização de tantas eleições como temos. A Holanda tem 16 milhões de habitantes. 12 vezes menos do que o Brasil e o seu território é cerca de 200 vezes menor do que o nosso. Claro que não é por falta de inteligência que eles não implantaram ainda um sistema de voto eletrônico. Acresce-se a isso o fato de que a Holanda é uma monarquia constitucional que elege por voto direto apenas os 150 membros da Segunda Câmara e os Deputados das 12 províncias. Bem mais simples do que o nosso sistema eleitoral. Tenho certeza que o Brasil não terá nenhum pudor em passar-lhes nosso know how nesta matéria se eles julgarem importante tê-la.
2) Só existe uma companhia telefônica e (pasmem!) se você ligar reclamando do serviço, corre o risco de ter seu telefone temporariamente desconectado.
COMENTÁRIO: Lamento que atualmente seja assim. Quando morei naquele belo país, funcionava muito bem. No Brasil, o sistema teve grande crescimento com a privatização do setor de comunicações. Porém, isto nos trouxe um problema que nem podíamos imaginar e que ainda não se encontra resolvido: O atendimento ao consumidor é uma tortura sem fim. Quem nunca teve um ataque de nervos quando precisou falar com a operadora da telefonia fixa ou mesmo da celular para fazer uma reclamação ou cancelar uma linha? Por aqui as coisas melhoraram, sem dúvida, porém ainda não estão boas.
3) Nos Estados Unidos e na Europa, ninguém tem o hábito de enrolar o sanduíche em um guardanapo - ou de lavar as mãos - antes de comer. Nas padarias, feiras e açougues europeus, os atendentes recebem o dinheiro e com a mesma mão suja entregam o pão ou a carne. Em Londres, existe um lugar famosíssimo que vende batatas fritas enroladas em folhas de jornal - e tem fila na porta.
COMENTÁRIO: Penso que a autora da carta menciona alguma excentricidade de certos lugares. Eu mesmo nunca vi de forma generalizada essa falta de higiene nos paises desenvolvidos. Se isso fosse real haveria muita doença, o que sabidamente não é o caso. Aqui no Brasil, excluídos as regiões mais abastadas e por isso, melhor educadas, o que se vê é exatamente a falta de higiene. Será que a autora já foi a uma favela, a um boteco de periferia ou à feira livre em certos rincões do país?
4) Na Europa, nao-fumante é minoria. Se pedir mesa de não-fumante, o garçom ri na sua cara, porque não existe. Fumam até em elevador. Em Paris, os garçons são conhecidos por seu mau humor e grosseria e qualquer garçom de botequim no Brasil podia ir para lá dar aulas de 'Como conquistar o Cliente'.
COMENTÁRIO: Verdade que o atendimento de restaurantes ou de outros serviços em Paris é um acinte. Nosso povo mais comunicativo e caloroso seria, de fato, um sucesso por lá. Mas não vamos pensar que todos os prestadores de serviços aqui no “patropi” são, assim, tão gentis. Quem já teve a experiência de ser atendimento em uma Delegacia de Polícia para registrar um BO? Você já viu como as pessoas simples são tratadas nas filas do INSS ou em um hospital do SUS? E uma abordagem de um policial na nobre missão de cuidar da segurança pública?
5) Você sabe como as grandes potências fazem para destruir um povo? Impõem suas crenças e cultura. Se você parar para observar, em todo filme dos EUA a bandeira nacional aparece, e geralmente na hora em que estamos emotivos.
COMENTÁRIO: Não dá para concordar plenamente. Penso que ela não conhece o Galvão Bueno e outros ufanistas tupiniquins. O brasileiro é exageradamente nacionalista. Em qualquer evento esportivo do mundo vemos mais bandeiras do Brasil do que de outros paises, incluindo a dos EUA. Penso até que um dos nossos males é exatamente esse de achar que somos bons em tudo, quando na verdade somos apenas bons em algumas coisas.
6) O Brasil tem uma língua que, apesar de não se parecer quase nada com a língua portuguesa, é chamada de língua portuguesa, enquanto que as empresas de software a chamam de português brasileiro, porque não conseguem se comunicar com os seus usuários brasileiros através da língua Portuguesa.
COMENTÁRIO: Jogo do contente, pois ter um Português mais apreciado do que o do país original não melhora muito nossa vida no mundo internacional dos negócios. Temos, sim, orgulho da língua portuguesa, mas seria muito bom se os brasileiros falassem com mais regularidade a língua internacional por excelência que é o Inglês.
7) Os brasileiros são vítimas de vários crimes contra sua pátria, crenças, cultura, língua, etc. Os brasileiros mais esclarecidos sabem que tem muitas razões para resgatar as raízes culturais. Os dados são da Antropos Consulting:
COMENTÁRIO: Essa informação contradiz pesquisas que nos mostram como um dos povos mais otimistas do mundo, mesmo sabendo que temos carências sociais ainda não resolvidas. Minha experiência pessoal é que, fora do Brasil, sempre tive muito orgulho de dizer que sou brasileiro. A nossa imagem é – em geral – muito boa. Isso nos facilita a abertura de muitas portas.
8) O Brasil é o país que tem tido maior sucesso no combate à AIDS e outras doenças sexualmente transmissíveis, e vem sendo exemplo mundial.
COMENTÁRIO: Parece que isto é verdadeiro. Só precisamos investir em pesquisas próprias para não ficarmos pagando fortunas pela compra de medicamentos produzidos em outros paises como fazemos com o coquetel de combate à AIDS e outros medicamentos que os países desenvolvidos protegem com patentes e nos cobram os olhos da cara para seu fornecimento.
9) O Brasil é o único país do hemisfério sul que está participando do Projeto Genoma.
COMENTÁRIO: Legal! Temos tradição em pesquisas de vanguarda, o que nos falta é uma política robusta para o desenvolvimento de pesquisas nas mais variadas áreas das Ciências. As nossas Universidades apresentam baixíssimos índices de resultados em pesquisas básicas e há pouca integração com a iniciativa privada. Quem nunca ouviu falar de cientistas brasileiros que migram para centros mais desenvolvidos somente porque lá podem desenvolver melhor as suas pesquisas? No final, os paises desenvolvidos acabam usurpando os nossos talentos a custo zero e ainda ficam com a vanguarda do desenvolvimento cientifico.
10) Numa pesquisa envolvendo 50 cidades de diversos países, a cidade do Rio de Janeiro foi considerada a mais solidária.
COMENTÁRIO: Francamente não consigo entender como uma cidade tão perigosa e recordista mundial de crimes pode, ao mesmo tempo, ser assim tão solidária. Será que a solidariedade de que fala a autora é a normal entre vitimas da violência urbana? Enquanto tivermos tanta miséria nos aglomerados urbanos do país não conseguiremos fazer de nossas cidades locais agradáveis para se viver e para receber turistas. Não fosse isso verdade, o Rio de Janeiro, pelas suas belezas naturais incontestes, deveria ser um dos destinos turísticos mais fortes do mundo, e não é.
11) Nas eleições de 2000, o sistema do Tribunal Regional Eleitoral (TRE) estava informatizado em todas as regiões do Brasil, com resultados em menos de 24 horas depois do início das apurações. O modelo chamou a atenção de uma das maiores potências mundiais: os Estados Unidos, onde a apuração dos votos teve que ser refeita várias vezes, atrasando o resultado e colocando em xeque a credibilidade do processo.
COMENTÁRIO: Bom que tenhamos um sistema informatizado para apuração de votos em eleições de todos os níveis. Seria melhor, contudo, que tivéssemos bons candidatos, honestos, competentes e que encarassem a vida publica como um sacerdócio e não como meio de enriquecimento ilícito como temos visto ao longo de tantos anos da Política brasileira.
12) Mesmo sendo um país em desenvolvimento, os internautas brasileiros representam uma fatia de 40% do mercado na América Latina.
COMENTÁRIO: Temos crescido sim no uso da Internet e das ferramentas de informatização responsáveis pela economia pós-industrial que já domina grande parte do mundo. Esta, de fato, constitui-se em uma grande oportunidade que temos para queimar etapas no processo de desenvolvimento. Se os governos, presente e futuros, entenderem bem isso, certamente saberão cuidar bem para que as telecomunicações e a web não sucumbam sob o peso absurdo de impostos.
13) No Brasil, há 14 fábricas de veículos instaladas e outras 4 se instalando, enquanto alguns países vizinhos não possuem nenhuma.
COMENTÁRIO: Temos esse mercado de 190 milhões de habitantes e a abundância de recursos outros que nos propicia a montagem do próprio parque industrial. É algo que não devemos desprezar e muito menos tentar tirar proveito inconseqüente. Nesses dias que correm, discutem no âmbito do CONFAZ o aumento das alíquotas do IPI para os veículos populares, justo no momento em que o país mais produziu carros em toda a sua história. Os políticos imaginam que os fabricantes estão ganhando muito e o povo com muita renda, de tal modo que poderiam coletar mais impostos. Parece desconhecer que seria mais inteligente aumentar a arrecadação de impostos em função de maiores vendas em quantidades. Nunca devemos nos esquecer que a nossa carga tributária já ronda os 40% do PIB. Uma das maiores do mundo e sem retorno adequando em termos de serviços públicos. Querem matar a galinha dos ovos de ouro...
14) Das crianças e adolescentes entre 7 a 14 anos, 97,3% estão estudando.
COMENTÁRIO: Ótimo, mas precisamos persistir, pois o ideal é 100%. Além do mais, está na hora de começarmos a trabalhar no aspecto qualidade, pois o desempenho de nossos alunos em testes mundo afora sempre nos colocam nos últimos lugares. O problema começa com a falta de preparo dos professores, baixos salários que não atraem bons profissionais, escassez de recursos materiais e pais relapsos quanto à educação de seus filhos. Temos muito a fazer nesse tema.
15) O mercado de telefones celulares do Brasil é o segundo do mundo com 650 mil novas habilitações a cada mês.
COMENTÁRIO: A tecnologia de comunicação móvel desenvolveu-se e expandiu-se mundo afora. Felizmente em momento muito adequando tomamos a decisão de privatizar o setor e isto atraiu capitais que nos colocam em posição não muito distante do que já ocorre em paises de nível de desenvolvimento mais adiantado. Se os impostos não fossem tantos, teríamos mais gente ainda desfrutando dessa revolucionária tecnologia.
16) Na telefonia fixa, o país ocupa a quinta posição em número de linhas instaladas.
COMENTÁRIO: Mas, ainda temos problemas... O telefone tem que ter seu uso universalizado como está contido na legislação que regula o setor. Cobram-se, ainda, muitos impostos e a população mais pobre não consegue manter telefones fixos com taxas tão altas. A conseqüência disso é que está ocorrendo uma migração para a telefonia móvel, pois nela as pessoas ainda podem ser contatas sem necessariamente gerar ligações e custos.
17) Das empresas brasileiras, 6.890 possuem certificado de qualidade ISO 9000, maior número entre os países em desenvolvimento. No México são apenas 300 empresas e 265 na Argentina.
COMENTÁRIO: Este é um dado positivo. Felizmente, empresários brasileiros têm consciência de que a manutenção de suas posições de liderança nos mercados em que atuam depende da excelência de seus atendimentos e de seus produtos. As normas de qualidade são partes desse processo. Chama-nos, contudo, a atenção o fato de que não há certificado ISO 9000 capaz de melhorar o desempenho de prestadores de serviço monopolistas, como os Correios e outros quando não há concorrência para lhes roubar os clientes.
18) O Brasil é o segundo maior mercado de jatos e helicópteros executivos. Por que esse vício de só falar mal do Brasil?
COMENTÁRIO: A dimensão continental do país é propícia para a existência de um robusto mercado para aviação tanto comercial como pessoal. No entanto, não temos ainda um sistema de trens de alta velocidade ou mesmo metrôs em extensão suficiente para poupar-nos dos dissabores do uso quase que obrigatório do carro nas nossas grandes cidades. Não nos iludamos quanto ao tamanho da frota de helicópteros: Ela decorre da dificuldade de locomoção. Quem tem dinheiro suficiente opta por um helicóptero até mesmo para ir da casa que fica no bairro chique e tranqüilo para a sua fábrica do outro lado do burburinho urbano.
19) Por que não se orgulhar em dizer que o mercado editorial de livros é maior do que o da Itália, com mais de 50 mil títulos novos a cada ano?
COMENTÁRIO: A nossa publicação chegou a ápice de cerca de 50.000 títulos em 1998 e vem caindo gradativamente nos últimos anos. Atualmente está em cerca da metade de títulos novos. Não é difícil correlacionar esse número com o nível educacional do brasileiro. Sabemos que o brasileiro lê pouco, bem como a quantidade de analfabetos funcionais (aqueles que lêem, mas não compreendem bem o que lêem) é muito grande. O hábito da leitura deve ser forjado na escola básica. Esse é um dos grandes desafios do sistema educacional do país.
20) Que o Brasil tem o mais moderno sistema bancário do planeta?
COMENTÁRIO: Aqui uma pitada de ironia: Com tanto dinheiro que os bancos vêm ganhando nas últimas décadas neste país, seria inaceitável que não tivessem colocado parte de seus astronômicos lucros na modernização do sistema bancário. Além do mais, os bancos no Brasil são empregadores que pagam maus salários e a automação ajuda-os a reduzir a quantidade de funcionários de suas folhas de pagamento. Considerando que os grandes computadores, os softwares operacionais, seus aplicativos, bem como o hardware das redes de comunicação e outras parafernálias necessárias para o funcionamento dos sistemas computacionais dos bancos são desenvolvidos e vendidos pelos paises ricos, estes agradecem...
21) Que as agências de publicidade ganham os melhores e maiores prêmios mundiais?
COMENTÁRIO: É verdade! Temos grandes gênios da comunicação que merecerem tais prêmios. Não fosse a criatividade dessa gente, ficaria quase impossível vender produtos e serviços que incorporam uma das maiores cargas tributária do planeta.
22) Por que não se fala que o Brasil é o país mais empreendedor do mundo e que mais de 70% dos brasileiros, pobres e ricos, dedica considerável parte de seu tempo em trabalhos voluntários?
COMENTÁRIO: Essa faceta da personalidade média do brasileiro é de fato muito interessante. Temos – em geral – a idéia de que podemos ficar ricos tocando o próprio negócio. O brasileiro tem o empreendedorismo circulando em suas veias. Esse é um patrimônio cultural que nos colocaria em excelente posição no rank do desenvolvimento se não fossem os entraves burocráticos que nos colocam na rabeira da lista de países para se abrir e fechar negócios: Meses para abrir uma empresa e anos para fechá-la. Impostos em excesso, legislação trabalhista totalmente defasada, burocracia infinda para tudo e, apesar disso, ainda conseguimos levar adiante sonhos de termos o próprio negócio. Imaginem se fossemos um país sem burocracia e com nível adequado de tributação? Ninguém nos seguraria...
23) Por que não dizer que o Brasil é hoje a terceira maior democracia do mundo?
COMENTÁRIO: Ainda bem! Só que demoramos muito a consolidar nossa democracia. Tivéssemos consolidado-a há tempos e o nosso sistema político seria menos corrupto e confuso. Decisões de governo mais acertadas teriam nos colocado em patamar de desenvolvimento e de equilíbrio social elevados. A propósito, temos a quinta população mundial e, portanto é natural que sejamos, pelo menos numericamente falando, uma grande democracia.
24) Que apesar de todas as mazelas, o Congresso está punindo seus próprios membros, o que raramente ocorre em outros países ditos civilizados?
COMENTÁRIO: Não tomaria esta afirmação tão a sério. O nosso sistema eleitoral, embora com toda a aparência de democrático, contém um erro capital: As pessoas de bem se afastam da política porque não se sentiriam confortáveis em meio tão hostil, para não dizer outra palavra mais ácida. Por outro lado, os espertalhões, os desonestos e os detentores de outros vícios morais condenáveis buscam no aparato político meios para prosperarem e se protegerem. Um dia isso mudará, mas precisamos ainda de algumas gerações e de reformas do sistema político que garantam o mínimo de atratibilidade aos homens de bem.
25) Por que não lembrar que o povo brasileiro é um povo hospitaleiro, que se esforça para falar a língua dos turistas, gesticula e não mede esforços para atendê-los bem?
COMENTÁRIO: O caráter hospitaleiro do brasileiro é de fato um de nossos traços marcantes. Somos hospitaleiros e calorosos, penso, por que temos um país de sol o ano inteiro e a natureza pródiga que herdamos nos conferem permanente esperança quanto ao futuro. Quem já viveu em um país com pouco sol, onde tudo parece já ter sido feito, sabe muito bem o que é ser frio e triste ao mesmo tempo. Quanto a se esforçar para se comunicar com estrangeiros, isto faz parte desse caráter amistoso/caricatural de nossa gente.
26) Por que não se orgulhar de ser um povo que faz piada da própria desgraça e que enfrenta os desgostos sambando?
COMENTÁRIO: É assim que levamos a vida... Ponto para nós. Melhor, contudo, seria se sambássemos menos, mas, em contrapartida, tivéssemos a eliminação de nossos eternos contrastes sociais. Juro que eu abriria mão de ver anualmente a beleza do carnaval carioca se em troca acabássemos com as favelas e com a bandidagem que fizeram da cidade maravilhosa uma terra de contrastes e violência.
É! O Brasil é um país abençoado de fato. Bendito este povo, que possui a magia de unir todas as raças, de todos os credos. Bendito este povo, que sabe entender todos os sotaques. Bendito este povo, que oferece todos os tipos de climas para contentar toda gente. Bendita seja, querida pátria chamada Brasil!
No fim de um ano de trabalho, joão obteve uma redução de quinze por cento em seus vencimentos.
joão era moço. Aquele era seu primeiro emprego. Não se mostrou orgulhoso, embora tenha sido um dos poucos contemplados. Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso. Limitou-se a sorrir, a agradecer ao chefe.
No dia seguinte, mudou-se para um quarto mais distante do centro da cidade. Com o salário reduzido, podia pagar um aluguel menor.
Passou a tomar duas conduções para chegar ao trabalho. No entanto, estava satisfeito. Acordava mais cedo, e isto parecia aumentar-lhe a disposição.
Dois anos mais tarde, veio outra recompensa.
O chefe chamou-o e lhe comunicou o segundo corte salarial.
Desta vez, a empresa atravessava um período excelente. A redução foi um pouco maior: dezessete por cento.
Novos sorrisos, novos agradecimentos, nova mudança.
Agora joão acordava às cinco da manhã. Esperava três conduções. Em compensação, comia menos. Ficou mais esbelto. Sua pele tornou-se menos rosada. O contentamento aumentou.
Prosseguiu a luta.
Porém, nos quatro anos seguintes, nada de extraordinário aconteceu.
joão preocupava-se. Perdia o sono, envenenado em intrigas de colegas invejosos. Odiava-os. Torturava-se com a incompreensão do chefe. Mas não desistia. Passou a trabalhar mais duas horas diárias.
Uma tarde, quase ao fim do expediente, foi chamado ao escritório principal.
Respirou descompassado.
— Seu joão. Nossa firma tem uma grande dívida com o senhor.
joão baixou a cabeça em sinal de modéstia.
— Sabemos de todos os seus esforços. É nosso desejo dar-lhe uma prova substancial de nosso reconhecimento.
O coração parava.
— Além de uma redução de dezesseis por cento em seu ordenado, resolvemos, na reunião de ontem, rebaixá-lo de posto.
A revelação deslumbrou-o. Todos sorriam.
— De hoje em diante, o senhor passará a auxiliar de contabilidade, com menos cinco dias de férias. Contente?
Radiante, joão gaguejou alguma coisa ininteligível, cumprimentou a diretoria, voltou ao trabalho.
Nesta noite, joão não pensou em nada. Dormiu pacífico, no silêncio do subúrbio.
Mais uma vez, mudou-se. Finalmente, deixara de jantar. O almoço reduzira-se a um sanduíche. Emagrecia, sentia-se mais leve, mais ágil. Não havia necessidade de muita roupa. Eliminara certas despesas inúteis, lavadeira, pensão.
Chegava em casa às onze da noite, levantava-se às três da madrugada. Esfarelava-se num trem e dois ônibus para garantir meia hora de antecedência. A vida foi passando, com novos prêmios.
Aos sessenta anos, o ordenado equivalia a dois por cento do inicial. O organismo acomodara-se à fome. Uma vez ou outra, saboreava alguma raiz das estradas. Dormia apenas quinze minutos. Não tinha mais problemas de moradia ou vestimenta. Vivia nos campos, entre árvores refrescantes, cobria-se com os farrapos de um lençol adquirido há muito tempo.
O corpo era um monte de rugas sorridentes.
Todos os dias, um caminhão anônimo transportava-o ao trabalho. Quando completou quarenta anos de serviço, foi convocado pela chefia:
— Seu joão. O senhor acaba de ter seu salário eliminado. Não haverá mais férias. E sua função, a partir de amanhã, será a de limpador de nossos sanitários.
O crânio seco comprimiu-se. Do olho amarelado, escorreu um líquido tênue. A boca tremeu, mas nada disse. Sentia-se cansado. Enfim, atingira todos os objetivos. Tentou sorrir:
— Agradeço tudo que fizeram em meu benefício. Mas desejo requerer minha aposentadoria.
O chefe não compreendeu:
— Mas seu joão, logo agora que o senhor está desassalariado? Por quê? Dentro de alguns meses terá de pagar a taxa inicial para permanecer em nosso quadro. Desprezar tudo isto? Quarenta anos de convívio? O senhor ainda está forte. Que acha?
A emoção impediu qualquer resposta.
joão afastou-se. O lábio murcho se estendeu. A pele enrijeceu, ficou lisa. A estatura regrediu. A cabeça se fundiu ao corpo. As formas desumanizaram-se, planas, compactas. Nos lados, havia duas arestas. Tornou-se cinzento.
João transformou-se num arquivo de metal.
Texto publicado originalmente no livro "O Necrológio", Edições O Cruzeiro — Rio de Janeiro, 1972, foi incluído por Ítalo Moricone em sua seleção dos "Os Cem Melhores Contos Brasileiros do Século", Editora Objetiva — Rio de Janeiro, 2000, pág. 382.
Uma galinha achou alguns grãos de trigo e disse a seus vizinhos: “Se plantarmos este trigo, teremos pão para comer. Alguém quer me ajudar a plantá-lo?”
“Eu não”, disse a vaca. “Nem eu”, emendou o pato. “Eu muito menos”, completou o bode. “Eu também não”, falou o porco.
“Então eu mesma planto”, disse a galinha. E assim o fez. O trigo cresceu alto e amadureceu em grãos dourados. “Quem vai me ajudar a colher o trigo?”, quis saber a galinha.
“Eu não”, disse o pato. “Não depois de tantos anos de serviço”, exclamou a vaca. “Não faz parte de minhas funções”, disse o porco. “Eu me arriscaria a perder o seguro-desemprego”, disse o bode.
“Então eu mesma colho”, falou a galinha, e colheu o trigo ela mesma.
Finalmente, chegou a hora de preparar o pão. “Quem vai me ajudar a assar o pão?” indagou a galinha.
“Só se me pagarem hora extra”, falou a vaca. “Eu não posso por em risco meu auxílio-doença”, emendou o pato. “Eu fugi da escola, nunca aprendi a fazer pão e não quero perder o Bolsa Família”, disse o porco. “Caso só eu ajude, é discriminação”, resmungou o bode.
“Então eu mesma faço”, exclamou a pequena galinha. Ela assou cinco pães, e pôs todos numa cesta para que os vizinhos pudessem ver. De repente, todo mundo queria pão, e exigiu um pedaço. Mas a galinha simplesmente disse: “Não! Eu vou comer os cinco pães sozinha”.
“Lucros excessivos!”, gritou a vaca. O porco, esse só grunhiu. “Sanguessuga capitalista!”, exclamou o pato. “Eu exijo direitos iguais!”, bradou o bode.
Quando um agente do governo chegou, disse à galinhazinha: “Você não pode ser assim egoísta” “Mas eu ganhei esse pão com meu próprio suor”, defendeu-se a galinha.
“Exatamente”, disse o funcionário do governo. "Essa é a beleza da livre empresa. Qualquer um aqui na fazenda pode ganhar o quanto quiser. Mas sob nossas modernas regulamentações governamentais, os trabalhadores mais produtivos têm que dividir o produto de seu trabalho com os que não fazem nada”.
E todos viveram felizes para sempre, inclusive a pequena galinha, que sorriu e cacarejou: “eu estou grata”, “eu estou grata”.
Mas, os vizinhos sempre se perguntavam por que a galinha nunca mais fez um pão.
Essa fábula deveria ser distribuída e estudada em todas as escolas brasileiras.
Quem sabe assim, em uma ou duas gerações, sua mensagem central pudesse tomar o lugar de toda essa sanha pseudo-socialista que insiste em assombrar nosso país e condená-lo à eterna miséria.
Sem alarde, com muita discrição, a holandesa Philips passa hoje por uma forte mudança em sua forma de trabalhar – a mais profunda reviravolta nas últimas décadas. A reformulação afeta em cheio o negócio que deu nome e força à marca: a área de eletroeletrônicos. Com o objetivo de melhorar a rentabilidade, desde o primeiro dia do ano, as operações passaram a ser divididas em três segmentos: estilo de vida e consumo, cuidados com a saúde e iluminação. A idéia é fazer cada vez mais dinheiro com as duas últimas áreas, que englobam equipamentos hospitalares e lâmpadas, por exemplo. Os novos ventos chegaram também à subsidiária brasileira, assim como ocorreu em todas as filiais. Só que, por aqui, a virada na cultura e na estrutura da empresa criou gargalos e ruídos inéditos na longa trajetória da Philips no País. O abastecimento do varejo ficou comprometido, a concorrência avançou sobre sua participação de mercado e o portfólio de produtos encolheu.
As mudanças mais significativas aconteceram na área comercial. As forças de vendas da Philips e da Walita estão em processo de unificação. Os mesmos vendedores que retiram pedidos de TVs ou DVDs devem negociar a linha de eletrodomésticos, por exemplo. O escritório na sede da filial, na Chácara Santo Antônio, em São Paulo, está em plena reforma. Ao mesmo tempo, o comando no Brasil tomou algumas medidas específicas para a operação local, com revisão da linha de produtos e alterações no alto escalão. Tantas mexidas provocaram efeitos no mercado. O varejo teve dificuldades de receber eletroeletrônicos da Philips nos últimos meses. Uma grande rede varejista não compra mais com regularidade da Philips há um ano, apurou a DINHEIRO. “Certo dia liguei para a área de vendas, e não sabia com quem tirar o pedido”, diz o varejista. Nas redes Ponto Frio, Magazine Luiza, Extra, Fast Shop e Casa & Vídeo, a Philips tem, em média, apenas três modelos de TVs de LCD para venda. O televisor de cristal líquido é o principal negócio da empresa no setor. Sony, Samsung e LG oferecem até 12 modelos ao cliente. O televisor da linha Ambilight (aquele com luzes nas laterais), a coqueluche da marca, só foi encontrado em duas lojas. Já há estimativas de que a LG tenha chegado a 40% de participação de mercado em televisores.
A agressividade dos rivais fez Paulo Zottolo, presidente da Philips, mexer, há cinco meses, na área de marketing do grupo. Ele trouxe para a companhia Gisela Turqueti, que ocupava a diretoria da mesma área na Samsung. Na mídia, a empresa contratou Ivete Sangalo, a garota-propaganda da vez, que aparece em comerciais de xampus, cerveja, automóvel, entre outros. A decisão foi tomada depois que a campanha mundial “Sense and Simplicity” não pegou por aqui. Não se sabe se a baiana funcionou. Um balanço da ação deve ser apresentado nas próximas semanas. Procurada por DINHEIRO, a companhia informa que “fez alterações no seu portfólio no ano passado e isso pode ter afetado o varejo”. Mas esclarece que a situação está normalizada. Além disso, informa que a produção do modelo Ambilight será mantida, e novos modelos devem ser lançados. E esclarece que o grupo cresceu no ano passado no País, embora não possa apresentar os números. Enquanto isso, lá fora, a companhia encolhe no setor eletrônico. As vendas mundiais da Philips nessa área caíram de 10,5 bilhões de euros em 2006 para 10,3 bilhões de euros em 2007. Todos os grandes concorrentes cresceram, relatam os balanços. Em relatório ao mercado, a Philips informa que o setor requer “ação e atenção” – duas palavras que já parecem fazer parte do dicionário de Zottolo por aqui.
Que é mais nobre para o espírito: sofrer os dardos e setas de um ultrajante fado, ou tomar armas contra um mar de calamidades para pôr-lhes fim, resistindo? Morrer... dormir; nada mais! E com o sono, dizem, terminamos o pesar do coração e os mil naturais conflitos que constituem a herança da carne!
Que fim poderia ser mais devotamente desejado? Morrer... dormir! Dormir!... Talvez sonhar! Sim, eis aí a dificuldade! Porque é forçoso que nos detenhamos a considerar que sonhos possam sobrevir, durante o sono da morte, quando nos tenhamos libertado do torvelinho da vida.
Aí está a reflexão que torna uma calamidade a vida assim tão longa! Porque, senão, quem suportaria os ultrajes e desdéns do tempo, a injúria do opressor, a afronta do soberbo, as angústias do amor desprezado, a morosidade da lei, as insolências do poder e as humilhações que o paciente mérito recebe do homem indigno, quando ele próprio pudesse encontrar quietude com um simples estilete?
Quem gostaria de suportar tão duras cargas, gemendo e suando sob o peso de uma vida afanosa, se não fosse o temor de alguma coisa depois da morte, região misteriosa de onde nenhum viajante jamais voltou...
Vou-me embora pra Passárgada Lá sou amigo do rei Lá tenho a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Passárgada
Vou-me embora pra Passárgada Aqui eu não sou feliz Lá a existência é uma aventura De tal modo inconseqüente Que Joana a Louca de Espanha Rainha e falsa demente Vem a ser contraparente Da nora que eu nunca tive
E como farei ginástica Andarei de bicicleta Montarei em burro brabo Subirei no pau-de-sebo Tomarei banhos de mar! E quando estiver cansado Deito na beira do rio Mando chamar a mãe-d'água Pra me contar as histórias Que no tempo de eu menino Rosa vinha me contar Vou-me embora pra Passárgada
Em Pasárgada tem tudo É outra civilização Tem um processo seguro De impedir a concepção Tem telefone automático Tem alcalóide à vontade Tem prostitutas bonitas Para a gente namorar
E quando eu estiver mais triste Mas triste de não ter jeito Quando de noite me der Vontade de me matar Lá sou amigo do rei Terei a mulher que eu quero Na cama que escolherei Vou-me embora pra Passárgada.
"Há mulheres de todos os gêneros: histéricas, batalhadoras, frescas, profissionais, chatas, inteligentes, gostosas, parasitas, sensacionais.Mulheres de origens diversas, de idades várias, mulheres de posses ou de grana curta. Mulheres de tudo quanto é jeito.Mas, se eu fosse você prestaria atenção apenas num quesito: se a mulher é do tipo que puxa pra cima ou se é do tipo que empurra pra baixo.
Dizem que por trás de todo grande homem existe uma grande mulher!Meia-verdade. Ele pode ser grande estando sozinho também.Mas, com uma mulher xarope ele não vai chegar a lugar algum.
Mulher que puxa pra cima é mulher que aposta nas decisões do cara, que não fica telefonando pro escritório toda hora, que tem a profissão dela, que o apóia quando ele diz que vai pedir demissão por questões éticas e que confia que vai dar tudo certo.
Mulher que empurra pra baixo é a que põe minhoca na cabeça dele, a que tem acessos de carência bem na hora que ele tem que entrar numa reunião, a que não avaliza nenhuma mudança que ele propõe (inclusive decisões melhores para os dois), a que quer manter tudo como está.
Mulher que puxa pra cima é a que dá uns toques na hora de ele se vestir, a que não perturba com questões menores, a que incentiva o marido a procurar os amigos, a que separa matérias de revista que possam interessá-lo, a que indica livros, a que faz amor com vontade.
Mulher que empurra pra baixo é a que reclama do salário dele, a que não acredita que ele tenha taco pra assumir uma promoção, a que acha que viajar é despesa e não investimento, a que tem ciúmes da secretária.
Mulher que puxa pra cima é a que dá conselhos e não palpite, a que acompanha nas festas e nas roubadas, a que tem bom humor.
Mulher que empurra pra baixo é a que debocha dos defeitos dele em rodinhas de amigos e que não acredita que ele vá mais longe do que já foi.
Se por trás de todo grande homem, existe uma grande mulher, então vale o inverso também: por trás de um pequeno homem, talvez exista uma mulherzinha de nada."
Mineiro de nascimento, paulista por adoção. Economista e suplementado do Grupo Philips, fonte de grande parte de suas amizades. Aprecia literatura e, como hobby, dedica-se a escrever textos curtos como, crônicas do cotidiano político e social brasileiros, ensaios e contos, em geral refletindo sobre as virtudes e mazelas do mundo em que vivemos. Quanto a textos longos, já tem 21 livros publicados entre romances, autobiografia, crônicas, contos e ensaios.
Este blog encontra-se ligado ao blog principal de Edson Pinto e tem a finalidade de guardar os textos por ele selecionados que - pelo recurso do hiperlink - podem ser acessados a partir do blog principal: http://blog-do-edson-pinto.blogspot.com/